Uma casa sobre rodas, o futuro em ponto morto

André Crespo é professor e foi colocado no Alentejo, a 240 quilómetros de casa. A dar aulas em sete escolas e com um ordenado de 650 euros, vive numa autocaravana.

Rita Ferreira

Janeiro 2014

A segunda-feira de manhã é passada na manutenção. O mau tempo dos últimos dias fez estragos e na noite anterior André só não levou com água durante o sono por causa da inclinação que faz com que os pingos da chuva escorram para o lado contrário ao que dorme. Por cima da cama, que se abre em cima dos bancos agora reclinados e do volante da autocaravana – aqui tudo parece que fica em cima de alguma coisa –, há uma janela e é por aí que a água está a entrar. A resolução há-de ser simples. Uma pistola com silicone, uma ida ao tejadilho e a infiltração está tratada. Pelo menos até às próximas chuvadas.

André Lage Crespo tem 37 anos, é professor de Educação Física, e este ano ficou colocado no agrupamento de Santiago do Cacém com um horário que apenas contabiliza 13 dos 22 tempos que um professor pode leccionar por semana. Além das aulas de Actividades de Enriquecimento Curricular que o levam todos os dias à Escola Básica 2,3 de Alvalade do Sado – onde optou por viver –, dá aulas em mais seis escolas. “Na Secundária de Santiago do Cacém dou aulas à quinta-feira, na Escola Básica de Santiago tenho duas turmas às terças, quartas, quintas e sextas, e depois tenho as escolas primárias. Vou à terça a Aldeia de Chãos, a cinco quilómetros de Santiago, na quarta estou em Abela, a uns 20 quilómetros, na quinta-feira em Santa Cruz e na sexta-feira vou a Cruz de João Mendes”, explica, sem nunca baralhar os dias, nem as horas nem os locais. Este ano tem o Renault Clio que a irmã, emigrada em Itália, lhe emprestou para se deslocar. Antes dessa benesse, andava de bicicleta.

Recebe ao final do mês 650 euros. Dá para pouca coisa. Daria para ainda menos se tivesse de pagar 250 euros de renda de casa, mais despesas de gás, água e luz, que é o que normalmente se gasta num apartamento por aquelas bandas. Daí a autocaravana: “Financeiramente compensa e em termos de conforto também”, jura a pés juntos, ainda que seja à partida difícil convencer os mais “ortodoxos” de que se está melhor ali do que numa casa de tijolo, com portas entre as divisões, camas que assentam no chão e casas de banho com canalização. André explica melhor. “No Inverno as casas que há aqui são muito desconfortáveis, têm muita humidade. Basta-me ligar o aquecedor durante cinco minutos e já está a caravana toda quente.”

Esta já é a segunda autocaravana de André. A primeira – comprada para ir passar fins-de-semana e férias – “era minúscula em relação a esta” e por isso também decidiu trocá-la. Agora tem uma Hymer, que, apesar dos seus vinte anos, está em muito bom estado.

Abre-se a porta e, da rua, entra-se para a zona de refeições, que é também onde se cozinha. Do lado direito fica a frente do veículo, com a cama por cima do volante, tipo mezzanine. Ao lado da janela lateral está uma mesa com dois sofás onde cabem quatro pessoas. Ainda há espaço para uma quinta num banquinho na cabeceira da mesa (isto desde que ninguém tenha de movimentar-se).

A banca da cozinha fica ao alcance da mão de quem está sentado à mesa. Tem uma placa com três bicos de gás que funcionam bem, ao lado um lava-loiça. Por baixo, o frigorífico – de tamanho idêntico aos que se vêem nos quartos de hotel –, e por cima ficam tachos, frigideiras, pratos e copos. Ao lado, mais dois armários: o de cima leva as mercearias, o de baixo – o maior – é o guarda-roupa. Em frente está a porta para a casa-de-banho, mais ou menos do tamanho das dos aviões – por isso quando se toma banho ali ocupa-se o espaço todo. A cortina de banho com o planisfério protege a porta da casa-de-banho. “Quando venho da praia passo o chuveiro para o lado de fora e tiro a areia e o sal na rua”, explica.

Na parte de trás da autocaravana há um sofá em forma de “u” que pode transformar-se em cama. Lá, repousa a viola, a prancha de surf e um cartaz que já correu manifestações e ali está à espera de outras que hão-de vir: “EXIGIMOS O FIM DO ATAQUE À ESCOLA PÚBLICA”.

©osomeafuriaVinte euros por mês

“O maior desconforto de viver numa autocaravana é o da roupa para lavar. Às vezes consigo lavá-la na escola, mas há pouco tempo a máquina avariou e tive de arranjar outras formas. Já pedi a alunos para poder lavar roupa em casa dos pais deles, as peças mais pequenas lavo aqui à mão. Tenho um estendal que coloco agarrado à janela e seca bem”, conta André, enquanto tempera o frango que vai assar para o almoço.

Já ninguém estranha quando passa e vê a roupa estendida. Em Alvalade já se habituaram a ver a autocaravana estacionada junto à Tasca do Zé, numa rua paralela à escola – está tão perto que se ouve a campainha –, protegida pelo casario que afasta os ventos fortes do Inverno. Mas nem sempre foi assim. Quando André chegou a esta vila do Litoral alentejano as pessoas olharam de lado e, no café, deixaram-lhe um aviso: “No Inverno não vai aguentar com o frio.” A curiosidade e a estranheza depressa se tornaram em boa vizinhança. Ninguém o chateia com o facto de estar estacionado sempre no mesmo local – “à partida não se pode” –, nem com os calços que tem nas rodas dianteiras para equilibrar o veículo – “acho que também não é permitido”. Os receios de André não têm a ver com multas, mas com a possibilidade de alguém se lembrar de começar a cobrar um imposto “tipo IMI” sobre as autocaravanas.

Enquanto nada disso acontece, as preocupações são mínimas. “Uma das coisas mais chatas de viver aqui tem a ver com a casa-de-banho. Tenho de despejar o depósito uma vez por semana. Levanto uma tampa de esgoto e despejo tudo lá e depois peço aqui a um dos vizinhos destas casas para lavar a cassete (é assim que se chama o contentor). Não cheira mal, porque há um líquido que se coloca para não haver cheiro.” E estar estacionado no meio da rua deixa-o mais próximo de quem passa. “Os putos às vezes falam mais alto, ou batem à porta, mas é uma coisa rara.”

E contas? Com a autocaravana já paga, André gasta por mês vinte euros numa botija de gás GPL. Ponto. O gás é para aquecer a água e para cozinhar. Tem um painel solar que serve para carregar a bateria da autocaravana e para a luz interior. O telemóvel é carregado no isqueiro da viatura. André não tem televisão, diz que não lhe faz falta, e quando precisa de Internet vai aos bombeiros com o seu computador e lá pode navegar à vontade. “Durante o dia não estou cá e de noite, depois de jantar, vou ao café. Leio livros, vejo filmes e toco viola, embora não goste muito de tocar sozinho”, diz o professor, para quem o problema não é a casa onde vive mas o facto de ter perdido alguns amigos que já por ali tinha feito e que eram uma companhia.

André já dá aulas há 13 anos. Durante muito tempo ficou colocado nos arredores de Leiria, onde nasceu, onde vivem os pais, onde está a namorada e onde tem um apartamento que comprou em 2008 e onde viveu seis meses. “É um T2 ou T3, já nem sei bem”, diz. O apartamento está lá, sem ninguém, porque com os impostos sobre o arrendamento nem compensa alugar. A namorada, advogada, vê-a aos fins de semana. Filhos? “Não tenho, mas gostava de ter. Se calhar vai ter de ser, vamos esperar porquê?”, pergunta, encolhendo os ombros, sabendo no fundo que a situação à partida não vai melhorar.

Cada vez há menos alunos, cada vez há menos horários para preencher, cada vez se recebe menos. “Quando comecei a trabalhar, há 13 anos, fora da escola, ganhava três vezes mais. O dinheiro que juntei torrei na casa, mas pronto, há quem diga que é um investimento”, lamenta-se. Aos 37 anos conta com a ajuda financeira dos pais, ambos reformados. “Mói a cabeça, porque percebemos que não há perspectiva.”

O frango está temperado. Do outro lado do muro que ladeia o passeio junto ao qual a autocaravana está estacionada, os donos da Tasca do Zé já grelham as febras que fazem o prato do dia. André pergunta se pode usar o fogareiro suplente e o senhor Zé oferece as brasas já prontas. André entra no portão do vizinho e começa a preparar o almoço. Como é segunda -feira, Artur vem almoçar, tal como às sextas vem jantar. É professor de Educação Visual e Tecnológica e vive em Porto Covo, para onde André vai em alguns fins-de-semana. Hoje trouxe a filha, Matilde, que tem seis anos. Ela já almoçou. Pediu ao pai para a trazer porque quer saber como se vive numa autocaravana.