Um filme realizado por António Feliciano

António Feliciano dedicou toda a sua vida ao cinema. Aos 75 anos é o último projeccionista ambulante do país e é também dono do Cineteatro Girasol, a única sala de cinema em todo o concelho Odemira, o maior em extensão de todo o país. O espaço mantém-se em funcionamento graças à reforma de António, mas a falta de espectadores não lhe deixa outra opção se não fechar portas. O fim desta sala está marcado para 2015.

João de Almeida Dias

Julho 2014

Nunca se tinha visto tanta gente a olhar para aquela parede. No interior existe uma garagem, que pertence a um privado, por fora é apenas uma parede branca. Fica a meio caminho entre a entrada e a saída do Rogil, uma das freguesias do concelho algarvio de Aljezur. A parede estende-se por dez metros de comprimento e chega aos três metros de altura. É mesmo no meio, como se tivesse sido planeado a regra e esquadro, que está projectado o menu inicial do DVD do filme “A Gaiola Dourada”, do realizador Rúben Alves. 130 pessoas aguardam o início do filme.

António Feliciano está do lado direito do projector de onde sai um feixe de luz que rasga o ar até à parede branca. Acaba de sentar-se numa cadeira de plástico e, vestido com um casaco azul escuro com a inscrição “CINEMA” em letras brancas nas costas, o homem de 75 anos pega no comando do leitor de DVD e dá ordem para iniciar o filme.

O murmurar dos espectadores cessa quando Maria Ribeiro, uma porteira de um prédio em Paris interpretada pela actriz Rita Blanco, surge a caminhar pelas ruas da capital francesa. O som do acordeão escolhido para ilustrar a cena inicial ecoa pelas ruas vazias do Rogil.

***

António Feliciano nasceu em 1939 em Sabóia, uma aldeia do Baixo Alentejo, a 35 quilómetros do mar. A família era pobre, os três filhos sustentados por um pai carpinteiro e uma mãe doméstica. À semelhança de muitos dos filhos da terra, o mais provável era que o seu futuro passasse pelo trabalho na agricultura ou, com alguma sorte, no pequeno comércio. A abundância era utopia, o bastante era raro. Assim era o Alentejo. Mas o guião de António começou a mudar aos quatro anos, quando a carrinha de um projeccionista ambulante entrou na aldeia.

Era costume a carrinha entrar em “grande banzé”, com música a tocar ao mesmo tempo que era anunciado o filme que ia ser projectado nessa noite. Ao mais pequeno sinal de que o veículo se aproximava da aldeia, as crianças apareciam de todos os cantos de Sabóia para se juntarem ao espectáculo.

Corriam ao lado da carrinha branca até esta estacionar junto à Casa do Povo, onde aconteciam as sessões. Era lá que os miúdos ofereciam ajuda ao projeccionista para descarregar o material, na esperança de que este os deixasse entrar de graça na sessão. “Ainda me lembro daquele homem, nunca me esqueço dele. Era alto e forte e só se vestia de preto. Tinha sempre um ar muito triste, nunca o vi de outra maneira. Houve uma vez, tinha eu quatro ou cinco anos, que esse homem se virou para mim, no meio daqueles miúdos todos que estavam à volta dele, e meteu-me nas mãos um monte de cartazes a anunciar a sessão daquela noite. ‘Toma, vai lá espalhar isto pela aldeia que depois entras sem pagar.’” António fez rapidamente o seu trabalho e conseguiu voltar a tempo da matinée. Nesse dia não almoçou nem jantou. Só depois da soirée voltou a casa, para alívio dos seus pais. Não tinha feito nada de mal: ficou a ver filmes.

A partir de então, António tornou-se o ajudante oficioso daquele homem alto, forte e triste, cujo nome nunca chegou a saber, sempre que ele fazia uma sessão em Sabóia. Foi assim até o dia em que ele deixou de passar por Sabóia, depois de “dois indivíduos lá da aldeia terem começado um negócio de cinema ambulante”, criando uma situação de monopólio – todos os fins-de-semana, dias de festa ou feriados estavam já requisitados por eles, deixando pouca ou nenhuma margem de manobra para os outros ambulantes.

António também lhes oferecia a sua ajuda – sentava-se na parte de trás da carrinha, escolhia a música que passava no altifalante e encarregava-se de anunciar o filme ao microfone para toda a aldeia. Os dois sócios, que “não sabiam nada de cinema”, foram mais tarde à falência e fugiram de Sabóia.

António, que ficou por lá e sem cinema que lhe valesse, arranjou, aos 24 anos, um sócio que aceitou ir até Lisboa comprar uma carrinha Volkswagen, “em bom estado visual mas com o motor gasto”, e um projector usado. Fizeram sessões no Alentejo, no Ribatejo e no Algarve, sempre com o coração nas mãos devido à pouca fiabilidade da carrinha. Uma vez tiveram uma fuga de óleo no concelho de Setúbal. A única maneira de continuar a andar foi comprar azeite pelo caminho e rezar para que o motor não estranhasse a solução de última hora. Foi assim durante um ano até que o sócio se “fartou do cinema”, vendendo-lhe a sua parte.

Foi a partir desse momento que António começou a contar os seus 50 anos de projeccionista ambulante. Já o fez em ditadura e em democracia, no século XX e no século XXI – cada um destes períodos trouxe desafios diferentes. Passaram-lhe 22 carrinhas pelas mãos e, segundo as suas contas, fez “mais de quatro milhões de quilómetros” para levar cinema onde houvesse espectadores.

Quando se lançou sozinho no negócio, teve de obter um novo alvará. Para tal, era preciso uma autorização da censura, que tardou a chegar-lhe às mãos. Para acelerar o processo, recorreu a um contacto na esperança de que este o pudesse ajudar: o padrasto do seu sogro era próximo do chefe de esquadra da PSP na Praça da Alegria, em Lisboa. Foi lá que António se dirigiu e lhe perguntou se este conseguia agilizar o  pedido. A resposta inicial não foi a que esperava: “Você tem a certeza de que quer fazer isto? Oiça lá, um rapaz bem vestido e bem falante como você quer ser ambulante? Você sabe o que é que vos chamam na polícia? São os ‘cães sem coleira’, ninguém vos quer de tão sujos que são.” António insistiu e pouco tempo depois tinha o alvará nas mãos.

“Umas pernas muita boas”

Antes do 25 de Abril, António era obrigado a ter uma patrulha da GNR presente em todas as sessões, cuja função era fazer um relatório onde constava a hora de início e de fim do filme, ou alguma situação anormal. O projeccionista, que por norma não tomava riscos, ocasionalmente abria uma excepção no concelho do Cercal, outra vila no Litoral alentejano.

Na altura, as distribuidoras tinham de enviar as películas que recebiam do estrangeiro para a censura, para que estas pudessem ser classificadas. Conhecendo o critério apertado dos censores, algumas distribuidoras faziam uma auto-censura antes de mandarem os filmes para avaliação. Todos os fotogramas que eram retirados para aligeirar a película – que geralmente mostravam mulheres nuas ou semi-nuas – eram guardados em cacifos nos armazéns das distribuidoras. António, quando conquistou a confiança de alguns funcionários dessas empresas, passou a pedir-lhes emprestados alguns desses fotogramas com a promessa de mais tarde os devolver.

No Cercal, os militares da GNR encarregues de patrulhar a sessão, eram pouco perspicazes, deviam pouco ou nada à inteligência, conforme António lembra. Por isso, escolheu aquela vila como local perfeito para o seu crime. Já com os fotogramas proibidos adicionados à película, punha propositadamente menos gasolina no gerador. Mesmo antes de este falhar, apareciam “umas pernas muita boas ou umas mamas”, para gáudio dos espectadores. A GNR ficava atrapalhada – o imprevisto teria de ser bem explicado no relatório, tal como teria de ser justificado o fim tardio da sessão. Sem saber como agir, os militares chegavam a pedir justificações ao projeccionista (“Que pouca vergonha é esta, agora aparecem aqui mulheres nuas do nada?!”), mas nunca referiram estes incidentes nos seus registos. “Eu acho que eles também gostavam de ir lá ver aquelas partes menos recomendáveis”, aventa.

Em 1969, António mudou-se com a mulher e os dois filhos para Lisboa, onde arranjou um emprego como escriturário num stand de automóveis. Pontual e exemplar, merecedor dos elogios do seu patrão, não abria mão do cinema ambulante. Na sexta-feira de manhã ia para o trabalho com a carrinha do cinema. Assim que chegava o final do dia de trabalho, fazia-se à estrada e só parava no Cercal, mesmo a tempo de fazer uma soirée. “Chegava lá, fazia o banzé todo, chamava as pessoas para a sessão e depois ia passar a noite a Sabóia.” No dia seguinte fazia uma matinée na sua terra natal, num salão que tinha edificado anos antes para lá haver cinema. Terminada a sessão, arrancava para Monchique e fazia lá a soirée no Sábado.

Ao Domingo, alternava entre o Carvoeiro ou Estômbar à tarde, e à noite terminava o seu périplo de fim-de-semana em Vila Nova de Milfontes. As noites eram passadas em pensões ou, em último caso, dentro da carrinha. Quando assim era, dormia sempre junto de ribeiras para de manhã poder fazer a higiene necessária. “Não queria parecer um cão sem coleira, lá está.” Quando fazia a última sessão de Domingo, arrumava tudo e voltava para Lisboa, onde chegava sempre por volta das 4h00. No dia seguinte regressava ao stand.

Esta foi a rotina de António até ao 25 de Abril de 1974. Um ano depois da revolução, os trabalhadores do stand de automóveis entraram em conflito com o patrão. O litígio ditou o fim da empresa, deixando todos os funcionários no desemprego. O acontecimento levou a que António tomasse um conjunto de decisões importantes. Depois de um casamento “quase forçado” aos 17 anos, divorciou-se aos 35 e saiu de Lisboa com a carrinha do cinema ambulante. “Voltei para o meu Alentejo, que era o que eu mais queria e nunca devia ter saído de cá.” Queria deixar de ser um “cão sem coleira” para passar a ter o seu próprio cinema com paredes, tecto, cadeiras e tela.

Um campo de girassóis

O primeiro passo foi investir todo o dinheiro que tinha na compra de uma esplanada em Vila Nova de Milfontes, na rua Custódio Brás Pacheco, a mais movimentada da vila. Começou logo por fazer sessões de cinema ao ar livre, mas o espaço revelou ser muito desabrigado. A poucos quilómetros do mar, a humidade era muita e o público demonstrava algum desconforto. Primeiro, foi feita uma cobertura; depois, construído um palco; mais tarde ergueram-se paredes. Passo a passo, o cinema foi construído até ter a forma actual e ter sido apelidado de Cineteatro Girasol, por naquele espaço ter havido, em tempos, um campo de cultivo de girassóis.

Assim que entra na sua sala de cinema, António começa a bater palmas e a exclamar “Ah! Ah! Ah!”, como se os gritos lhe saíssem do estômago. “Está a ver? Isto não tem eco nenhum, é uma acústica incrível.” O tecto está revestido a cortiça, as paredes são grossas e escuras. Ao todo, contam-se 278 cadeiras, duas das quais de corpo e meio, “para as pessoas mais gordas”. O vermelho dos assentos condiz com a cortina que tapa a tela e o palco, agora um armazém improvisado para cartazes blockbusters, como a paródia “Scary Movie 5” ou o filme de animação “Monsters Inc.”

O cinema está deserto aparte de António e de uma gata que por lá anda para garantir que não entram ratos. O projeccionista começa por fazer entusiasticamente uma visita guiada ao seu espaço. Mostra com minúcia a cabine de projecção, onde guarda um antigo projector a carvão, o primeiro a ser utilizado na sala; percorre o antigo bar do cinema e a sua arrecadação, onde guarda cartazes de todos os filmes que exibiu; fala com orgulho da cabine de projecção actual, cujas paredes estão forradas com fotografias de actores. António vive mesmo ao lado desta sala, num pequeno T1, cuja sala tem DVDs, cassetes VHS e CD espalhados um pouco por todo o lado.

Sobe e desce as escadas a uma velocidade invulgar para um homem de 75 anos. Nem nas pernas nem na cara acusa a idade – só à volta dos olhos demonstra algumas rugas – e mantém uma cabeleira escura e densa. A face é em tudo semelhante ao cantor seu homónimo António Calvário, que, se a Wikipédia não estiver errada, também tem 75 anos.

Tal como a carreira do candidato português ao Festival da Eurovisão em 1964, o Cineteatro Girasol já teve melhores tempos. As primeiras dificuldades chegaram com o advento das cassetes VHS, no início dos anos 90. A possibilidade de ver cinema no conforto de casa tirou espectadores à sala, algo que António não previra quando contraiu uma série de empréstimos para poder construir o seu espaço. “Nessa altura pensei que se não os podia vencer, então podia juntar-me a eles.” Vestiu fato e gravata e voltou a pegar na carrinha, que em vez de ter o projector e as fitas na parte de trás, tinha centenas de cassetes VHS que António se encarregava de vender aos vídeoclubes, na altura um negócio em expansão. “Ia buscar as cassetes a Lisboa. Cada uma custava 500$ e eu tirava 150$ de comissão por cada uma que vendia. Fazia isto no Inverno e nunca no fim-de-semana.”

Juntando a venda das cassetes às bilheteiras do Cineteatro Girasol e do cinema ambulante, conseguiu saldar as dívidas que tinha. Mas o decréscimo de espectadores foi sendo cada vez mais evidente – primeiro veio o DVD, pouco depois os downloads ilegais à velocidade de um clique. E, por cima de tudo, a crise. “[No final dos anos 80] eu fazia três sessões por dia. Na matinée fazia meia casa, depois à noite era casa cheia pela certa e na sessão da meia-noite ainda conseguia fazer outra meia casa. Era como se fizesse duas sessões esgotadas num dia. E agora faço as mesmas três sessões e tudo junto não chega para metade de uma.”

©osomeafuria Dois cinemas em todo o Alentejo

Hoje em dia, o Cineteatro Girasol está fechado, abrindo esporadicamente no Verão. Desde 2011 que funciona assim. Além da época balnear, altura em que Vila Nova de Milfontes recebe um bom número de turistas, o cinema só abre “três ou quatro vezes” no resto do ano. Nessa altura, a maior parte dos filmes projectados na tela pouco requisitada são aqueles que António decide ver sozinho. Escolhe um DVD da sua eleição e uma das 278 cadeiras que tem ao seu dispôr. No Inverno, para não gastar dinheiro no aquecimento, vai para a sala com uma manta, veste um casaco grosso por cima de várias camisolas e tapa a cabeça com um gorro.

O Alentejo estende-se ao longo de 31 551 quilómetros quadrados, pouco mais do que a Bélgica. Desde Nisa, o concelho mais a Norte, passando por Odemira, junto ao mar, até Barrancos, colada à fronteira com Espanha, vive apenas meio milhão de pessoas. Para estes, só existem dois cinemas comerciais em toda a região: um na cidade portuária de Sines e outro em Beja. Apenas este último consegue acompanhar as estreias que dão que falar no resto mundo.

António tem a quem apontar culpas. Mais do que às cassetes VHS; mais do que aos DVD; mais do que aos downloads ilegais; até mais do que à crise. Refere, por hábito, a Lusomundo, para logo se lembrar que esta agora pertence ao gigantesco grupo de audiovisual e comunicações NOS. A palavra que usa é mesmo “monopólio”, e mune-se de uma caneta e um guardanapo para melhor ilustrar a ideia. “Eles importam, licenciam, distribuem e exibem”, diz, escrevendo a frase e ligando cada um dos verbos com setas. “Já viu?”

É raro o filme que faça um bom número de bilheteira que não esteja sob a alçada desta empresa, que, explica, tem o monopólio das grandes produtoras de cinema mundiais. Alugar uma fita no dia de estreia é impensável para a bolsa de António. Resta esperar que o filme já tenha cinco ou seis semanas para que o preço diminua. Aí, paga 250 euros por dia para ter a película nas suas mãos. Com os bilhetes a 4,50 euros, António teria de contar com pelo menos 56 espectadores no total das três sessões diárias para custear apenas o aluguer do filme. É uma conta que peca por defeito, pois por cima disso ainda teria de pagar a funcionários (um para estar bilheteira, outro na porta, um projeccionista e um arrumador), e custear as despesas de manutenção, como a electricidade, a água e as limpezas. Em 2013 só abriu no Verão. No final de contas, teve 2400 euros de prejuízo.

O fim da distribuição de filmes em película, anunciado para 2015, será o fim do Cineteatro Girasol. É António quem o diz, “em primeira mão”. Um projector digital compatível com uma sala da dimensão do Girasol custa, garante, “uns 60 mil euros, e isto se já for usado”. “Não estou para fazer uma compra dessas quando não tenho anos suficientes de vida para a poder pagar. Isso só dava nos tempos em que eu fazia muito dinheiro com o cinema.” António recebe uma reforma de 400 euros mensais, que mal lhe chegam para as despesas de manutenção do Cineteatro. Além do pouco dinheiro que recebe por alugar alguns terrenos, o projeccionista não tem outra fonte de rendimento se não o cinema ambulante. Por isso, quando a câmara municipal de Aljezur lhe propôs, este Verão, que fizesse três sessões de cinema ambulante ao ar livre em três duas suas freguesias, António tratou logo de requisitar os DVDs necessários à NOS.

***

 30 minutos depois de sair de Vila Nova de Milfontes, António cruza a placa que dá entrada na vila do Rogil. Mal passa a fronteira, encosta bruscamente a carrinha Renault Kangoo branca com matrícula de 2002 à berma da estrada e sai para abrir a bagageira. Tira de lá um altifalante que rapidamente coloca no tecto da viatura com o auxílio de quatro cordas presas nas portas. Já dentro do carro, liga o sistema de som que tem debaixo do porta-luvas e pega num microfone que ali está ligado. Primeiro ouve-se a voz de Paco Bandeira a cantar a música “João Saramago”. Mal dá para perceber a letra. Por cima, António logo começa a falar enquanto conduz o carro a 20 quilómetros por hora, ao mesmo tempo que os rogilenses, curiosos, olham para ele:

- “Hoje, nove horas e meia da noite. O Rogil vai estar em festa com cinema. Sessão ao ar livre, como livre é a entrada. Com o filme ’A Gaiola Dourada’. Um filme feito em França com gente portuguesa. Gente que sente, que pensa e que sofre como nós. Todos os portugueses que vivem com dificuldades.”