Perivaldo vai voltar ao Maracanã

Perivaldo Lúcio Dantas viveu uma vida miserável em Portugal, mas no Brasil chegou a ser titular da selecção de futebol brasileira. Dormiu na rua, ficou sem dinheiro, foi esquecido por todos. Ao fim de 24 anos, um programa humorístico devolveu-o à fama. Com ajuda, voltou para o Brasil a tempo de ver a equipa canarinha jogar no Mundial de 2014.

João de Almeida Dias

Dezembro 2013

Não há nervosismo, só calma. Perivaldo entra na sala de blazer castanho, cobrindo uma camisa preta e uma gravata cor de sangue. As pernas delgadas levam uns calções beges e umas ceroulas negras que contrastam com os ténis brancos, como a fita que lhe prende as rastas no cabelo. Não há nervosismo, só calma, e por isso quando se senta perante uma sala cheia de jornalistas Perivaldo pousa na mesa uma maçã verde que leva na mão.

Sentado do lado direito de Perivaldo, Joaquim Evangelista, o presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) de Portugal, é o primeiro a falar. O ex-jogador ouve com atenção as palavras do anfitrião da conferência de imprensa. “Infelizmente esta situação de jogadores que são estrelas num determinado momento e se embriagam com o sucesso acontece muito nesta profissão.” Perivaldo fecha a cara, e Evangelista continua: “As causas para isto suceder são várias. O estilo de vida exagerado, as más companhias, os maus investimentos, os processos de divórcio ruinosos… Há variadíssimas causas.”

Alfredo Sampaio, o presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (SAFERJ), toma a palavra e sublinha a ideia do seu homólogo português. “O futebol é uma profissão encantadora. Há muitos recursos, o cara fica rico… O cara que é feio fica bonito. É verdade. O cara que nunca sonhou andar com uma loira bonita anda com a melhor miss.” Sampaio ri das suas palavras, mas fala a sério. “O futebol é uma armadilha. É um cone ao contrário: muitos entram, poucos saem.” Alheio aos disparos das máquinas de fotografar e às objectivas das câmaras de filmar que não descolam dele, o ex-jogador, que está sentado ao lado do seu filho Marcelo, regista estas palavras e faz que sim com a cabeça. Não há que esconder que é dele que falam. Ele mesmo, Perivaldo Lúcio Dantas, o antigo jogador do Botafogo e da selecção brasileira que acabou a viver nas ruas de Lisboa.

Perivaldo só calçou um par de sapatos quando já era adolescente e jogava futebol. Nasceu em Itabuna, uma cidade pequena da Baía. Foi o último de seis irmãos, filhos de uma dona de casa e de um tropeiro, isto é, um pastor. “O meu pai era um desgraçado. O tropeiro é um desgraçado. Ele tinha aquela boiada, né? Aí ele levava a boiada como daqui de Lisboa até Cascais ou até muito mais longe. Saía às quatro da manhã para levar a água ao rebanho e quando regressava já eram cinco ou seis da tarde. É por isso que eu canto muito aquela música”, diz a uma semana da conferência de imprensa, lembrando-se da música “Tropeiro”, do Trio Nordestino. Sem pressa e com confiança, como faz nas várias ocasiões em que acha que melhor do que falar é cantar uma música que ilustre aquilo que quer contar. Endireita-se e levanta o dedo de cada vez que a letra parece ter sido escrita de propósito para o seu pai. “Tropeiro! Vai partir de madrugada e não vê mais a sua amada e apressado saía / Tropeiro! É muito longe a estrada, põe na frente a burrarada e amanhece o dia / Pára o rebanho já cansado de andar / E vai descansar lá no canto sozinho / Pensa na vida cheio de amargura / Essa criatura vive sem carinho”.

Em 1975 a vida de Perivaldo mudou para sempre. Aos 22 anos o lateral direito trocou a camisola do Itabuna Esporte Clube pela do Esporte Clube Bahia, a maior equipa do seu Estado e indiscutível presença na primeira divisão brasileira. A 500 quilómetros da casa onde cresceu, Perivaldo assentou malas no melhor bairro de Salvador: a Pituba. “É um bairro milionário! O bairro está aqui e a praia está logo aí, ó”, diz a apontar para perto. “Na altura havia um radialista, o Edson Mauro, da Globo, que me perguntou onde eu morava. E eu respondi ‘eu moro na Pituba, rapaz!’. E aí ele botou o nome: Peri da Pituba. O pessoal da minha terra lá não gostou muito disso, disseram que fiquei com a pele macia, que esqueci. Esqueci não. Só mudei!”

Em 1976 ganhou a primeira Bola de Prata, troféu que distingue o melhor jogador do Brasil em cada posição. Foi destacado por defender bem, como compete aos jogadores mais recuados no campo, mas também por subir até à linha de cabeceira adversária como poucos defesas da altura se atreviam. Por isso, foi chamado para o clube onde viria a ser mais feliz: o Botafogo, do Rio de Janeiro.

“Foi no Botafogo que eu me confirmei, rapaz. Foi lá que eu joguei mais à bola, treinava no duro e fazia grandes jogos. Ganhei mais uma Bola de Prata [em 1981]. Eu jogava na defesa mas marcava muitos gols. Chegava a marcar 15 por época, porque eu cobrava pênaltis e faltas também. Eu era da porra, mesmo, viu?”, lembra o ex-jogador que alguns adeptos alvinegros ainda recordam. Lembram-se da sua velocidade, da luta até ao fim e dos centros que não davam mais trabalho ao ponta-de-lança do que encostar para golo. Outros recordam o estilo agressivo que lhe valeu uma expulsão por falta contra o São Paulo ainda o jogo não tinha um minuto ou o hábito de gozar com os adversários em campo. Num desafio contra o Flamengo, Perivaldo atazanou tanto o histórico Zico que este acabou por responder-lhe com uma cotovelada.

Foi precisamente ao lado de Zico que Perivaldo concretizou o sonho de qualquer jogador brasileiro: vestir a camisola da selecção do seu país. Era o ano de 1981, e também lá estavam Júnior, Falcão e Sócrates, colega de quarto do Peri da Pituba. Se há uma memória a reter de Perivaldo ao serviço da canarinha é um golo que ele evitou em cima da linha com um pontapé de bicicleta num jogo amigável contra a Checoslováquia. Foi o seu terceiro e último jogo na selecção – o início de uma série de lesões nos joelhos deixou-o menos possante, menos capaz de continuar a ser o Peri por quem a torcida alvinegra cantava: “Um, dois, três, quatro, cinco, mil! Quem não gosta do Perivaldo vá para a puta que pariu!”

Toda a gente gostava de Perivaldo. É o próprio que o diz: “Toda a gente me adorava, porque eu treinava no duro, jogava bem e depois, sabe, eu gostava muito de mandar o meu estilo, tá entendendo, meu irmão?”, diz, numa gargalhada. Era rara a ocasião em que o baiano aparecia em público sem espantar. Ornado de fios de ouro, anéis grandes e vistosos, Perivaldo alternava entre estilos arrojados e clássicos. Tanto aparecia com uma peça de roupa de cada cor, como com um fato clássico. “Rapaz, eu era muito elegante, sempre gostei de me vestir bem. Houve uma vez que o Botafogo foi jogar no Canadá, e quando nós voltamos a galera ficou maluca. Sabe porquê? Porque eu tinha uns All-Star calçados! Não tinha disso no Brasil, não! Fui eu que trouxe aquilo para o Brasil, rapaz! Era muito estiloso. Tinha muita roupa, muitas jóias… Mas vou-te contar, o que eu tive mais foi mesmo mulheres!”

O assunto é mulheres e Perivaldo volta a cantar para falar dele. “Já tive mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores”, entoa de memória, sem tentar imitar a voz de Martinho da Vila, deixando o cunho da sua, mais aguda e sofrida. “Mas, olha, por acaso até é mentira. Não tive mulheres de todas as cores, não, eu só namorava loira. É o que a gente no Brasil chama de ‘espiga de milho’!”. Foi deixando filhos um pouco por todo o lado no Brasil. “Eu não tive filhos, eu fiz filhos, entendeu?”, explica em nova gargalhada. “Tenho 12 filhos, só dois são da mesma mulher. É, pode acreditar!”

A vida social passou a ocupar mais tempo a Perivaldo do que o futebol. Entretanto saíra do Botafogo e do Rio de Janeiro, numa transferência que o levou até ao Palmeiras de São Paulo. Tinha 30 anos. Não se deu bem, jogou pouco e mal, nem da comida gostava. Tinha contrato para duas épocas mas não ficou lá nem uma. Voltou para o Rio de Janeiro para jogar no Bangu. Ficou provado que era na cidade carioca que Perivaldo jogava melhor, mas a concentração e a dedicação nunca mais foram as mesmas. “Já não era o mesmo, a carreira do jogador é curta, e então fui aproveitar a vida.” Foi quando recebeu uma proposta para acabar a carreira num clube sul-coreano.

“A Coreia do Sul é completamente diferente de tudo o que eu conhecia, aquilo é muito estrito. Você não pode estar lá que nem aqui ou no Brasil, tomando uma cerveja na esplanada com calma. Lá não tem isso, não, é só trabalho”, lembra, escusando-se a dizer o nome do clube que o contratou. “Eu joguei pouco lá, não vale a pena falar sobre isso. Mas casei lá com uma sul-coreana, que conheci numa boutique. Ko Su Ya é o nome dela. Olha só, olha ela aqui.” Tira uma fotografia do casaco e mostra-a com orgulho. Ela, vestida de branco e com a cabeça coberta por um véu. Ele, do seu lado, com um fato de linho branco e o cabelo curto pintado de ruivo. “Mas as coisas começaram a não dar certo, lá um cara não pode fazer nada, não pode beber que todo o mundo fica logo falando. E aí já sabe como é no casamento. Mal você pensa em separação já está tudo acabado.”

Voltou para o Rio de Janeiro e já ninguém sabia quem ele era. Por isso, quando veio para Portugal, em 1989, poucos deram pela sua falta.

“Ninguém tem a minha pinta!”

Com uma câmara na mão direita, um gorro preto a tapar-lhe o cabelo e uma voz infantil e atabalhoada, embora com timbre de homem, Nilton fazia a mesma pergunta a todos os homens que encontrava no Rossio, a principal praça da Baixa lisboeta: “És o Fernando?!” Era a primeira vez que o comediante e apresentador do programa televisivo “5 Para a Meia-Noite”, da RTP1, encarnava esta personagem, com objectivo de filmar a reacção daqueles que viam os seus trajectos interrompidos por um homem que julga reconhecê-los e não os larga. Um deles caminhava calmamente. Magro e alto, vestia umas calças de ganga simples, um blazer cinzento ruço e sujo com a gola puxada para tapar o pescoço do frio que fazia em Abril de 2012 e ainda um boné que condizia com o casaco.

©osomeafuria– Fernando! Fernando! És o Fernando? – perguntou-lhe Nilton.

O homem olhou para ele, desconfiado, abrandou e ao quarto passo pára para lhe perguntar, arrogante e agressivo:

– Eu tenho cara de Fernando?

Nilton – É que pareces, mesmo!

Homem – Não… Ninguém tem a minha pinta!

Nilton – Não, não! Pareces o Fernando!

Homem – Fernando de quê?!

Nilton – O Fernando também tem assim um casaco…

Homem – Mas que Fernando?!

Nilton – … e tem um chapéu!

Homem – Isso não é chapéu, isso é boné!

Nilton – É? Posso ver? Deixa tocar…

Homem – Não vai tocar nada! Para tocar vai ter de pagar!

Nilton – Deixa tocar! Eu pago!

Homem – Então, vá, dá lá um euro!

O vídeo foi para as redes sociais. Foi partilhado por mais de 800 pessoas e visualizado por dezenas de milhares. Uma delas enviou uma mensagem privada a Nilton: “Esse homem do vídeo já jogou na selecção brasileira.”

“Quando eu fiz o primeiro vídeo do Fernando não fazia ideia de com quem estava a falar, mas quando soube do passado dele comecei a procurá-lo para fazer um segundo vídeo, desta vez com o Perivaldo, mesmo”, recorda o humorista, que, sempre que podia, passou a procurar o ex-jogador no Rossio. Viu-o uma segunda vez, mas ele fugiu. À terceira vez falou. Com a voz altiva, em tom de desafio, disse: “Eu, rapaz, sou o Peri da Pituba! Perivaldo, pá, o Lúcio! Sou um cara bacana, legal, meu irmão. Mas tu sabes: para me entrevistar vai ter de pagar! Numa boa, meu irmão…  tá compreendendo?”. No resto do vídeo, Perivaldo confirma o seu ego (“Meu amigo, eu não fui jogador de futebol, eu fui mestre de futebol, rapaz!”), lamenta o seu infortúnio (“Você tá com o bolso cheio, a grana tá a correr às mil maravilhas, você vai andando… quando você vai acordar o bolso já tá vazio”), assume as culpas (“Eu estava montado num cavalo e fui montar no burro. Então o burro sou eu!”) e tenta arranjar algum consolo (“Pelo menos não tou derrubado. Não tou com aquela pança… Porque o homem quando engorda é porque as células estão fracas!”).

Semanas depois de partilhar o vídeo nas redes sociais, no Verão de 2012, Nilton recebeu uma chamada. Era da TV Globo. Tinham visto as imagens e agora queriam preparar o regresso de Perivaldo ao Brasil.

Com a imprensa à perna

24 anos depois de ter chegado a Portugal sem ninguém dar por ele, preso entre o anonimato e o cepticismo de quem o ouvia dizer que já tinha jogado na selecção, Perivaldo voltou a ter as câmaras atrás dele.

A primeira foi a da TV Globo. Passado um ano e poucos meses da primeira conversa com Nilton, e por isso mais perto do Mundial de Futebol de 2014 no Brasil, a cadeia televisiva brasileira levou câmaras e mostrou um Perivaldo bem diferente daquele que a Globo mostrara nos anos 70 e no início dos 80. Já não tinha os fios de ouro, os carros e os relógios de luxo.

A reportagem, que passou no popular programa de televisão “Fantástico”, não podia ter sido mais crua. A narração do jornalista André Luiz Azevedo, correspondente da Globo em Lisboa, ia confirmando as imagens, gravadas à revelia de Perivaldo. “Preste atenção neste homem. Ele caminha pela rua, se aproxima de latas de lixo. Ele recolhe peças de roupa. Encontra um casaco e veste ali mesmo, no meio da rua.” A televisão mostra a Feira da Ladra, em Lisboa, onde todas as terças-feiras e sábados são vendidos artigos usados ou antigos. Perivaldo, sem outra fonte de rendimento, venderia roupa em segunda mão por lá. “Pouca gente poderia imaginar que este homem já vestiu a camisa amarela da selecção brasileira. (…) Mais tarde, à noite, encontrámos o lugar onde Perivaldo dorme,” ouvia-se, ao mesmo tempo que eram mostrados dois cartões estendidos com uma almofada por cima, escondidos entre a entrada para um parque de estacionamento subterrâneo e um arbusto. “A gente descobriu então que Perivaldo, o ex-jogador do Bangu, do Palmeiras, do Botafogo e da selecção brasileira, hoje é um morador de rua em Lisboa.”

No Brasil, as reacções não podiam ter sido de maior espanto. As primeiras foram do público que então se recordou daquele jogador, aquele mesmo, que poupou o Brasil à humilhação de sofrer um golo de chapéu da Checoslováquia. Mas enquanto o brasileiro comum puxava pela memória, a família de Perivaldo (espalhada um pouco por todo o Brasil, fruto dos filhos que, recorde-se, ele fez e não teve) não queria acreditar. Os telefonemas entre um lado e outro eram poucos, de ano a ano, mas o ex-jogador aproveitava-os todos para dizer sempre que estava bem. Já não era rico, mas também não era pobre. A reportagem da Globo contrariava todas essas conversas feitas à pressa para não gastar muito dinheiro no telemóvel. Alfredo Sampaio, o presidente do SAFERJ, entrou em contacto com Marcelo Sampaio Dantas, um dos 12 filhos de Perivaldo, e comprometeu-se a trazer o ex-internacional brasileiro para casa. O sindicato pagava as despesas da operação de resgate do baiano, a família dele agradecia, a Globo filmava e o Brasil inteiro ficava contente pelo filho que voltava a casa a tempo de se sentar na melhor cadeira do Maracanã para ver a sua selecção jogar a copa do mundo.

Em Portugal, a história caiu nas redacções como uma bomba. Durante semanas, poucos eram os locais de Lisboa onde fosse mais provável encontrar-se jornalistas do que na Feira da Ladra. Com encontro marcado ou aparecendo de surpresa, Perivaldo foi abordado por jornalistas do Diário de Notícias, de A Bola TV, da revista Maria, da Correio da Manhã TV, da RTP,  das agências Lusa e Associated Press. A SIC foi quem mais acompanhou a estrela, cuja vida resultará num documentário.

Embora quisessem descortinar o passado de Perivaldo, os media portugueses estavam mais interessados em conhecer o seu presente. O homem mais cobiçado pela imprensa portuguesa acedia à primeira parte, mesmo que com algumas reservas, e esquivava-se à segunda. “Eu não posso estar aqui falando mais, não, tenho que trabalhar! Tenho que garantir meu sustento, tenho coisas para pagar!” Foi-lhe perguntado vezes sem conta, ora indirecta ora directamente, se vivia na rua. “Não vivo, isso é tudo mentira. Eu fiz muita besteira, mas não vivo na rua. E não vou falar mais disso, porque isso é particular, tá entendendo? Vocês estão desgastando a minha imagem, eu no Brasil sou uma estrela.”

Aos poucos, porém, Perivaldo foi abrindo o jogo. Era preciso encontrá-lo num bom dia, providenciar-lhe algum conforto. Exigiu dinheiro muitas vezes, pedido a que alguns jornalistas cederam, e noutras ficou-se por refeições feitas em cafés nas imediações da Feira da Ladra. Balançando entre a humildade de quem nasceu pobre e a sobranceria de quem já foi tão rico que julgou nunca mais ter de trabalhar na vida, Perivaldo foi falando da sua vida em Portugal.

Em final de carreira, o ex-internacional brasileiro atravessou o oceano Atlântico em 1989 com a ideia de alinhar num clube português, qualquer um, desde que fosse pequeno o suficiente para que ele pudesse relaxar e que ao mesmo tempo desse para ninguém dar pelos seus 36 anos dentro de campo. Foi recebido por jogadores brasileiros que jogavam em equipas portuguesas. Estes prometeram-lhe ajuda, mas quando chegou a hora da verdade fugiram-lhe. “Sabe, você quando tem dinheiro, os amigos são muitos, vem gente de toda a parte querendo saber de você. Mas acabam sempre te atraiçoando. Eu cheguei rico a Portugal e fiquei pobre em menos de nada. E aí quando você passa mal, toda a gente se afasta.”

Sem futuro no futebol, Perivaldo foi trabalhar. “Eu fiz de tudo, rapaz, só não fiz de tropeiro como o meu pai! Eu trabalhei em restaurantes, como cozinheiro ou ajudante, fui trabalhar nas obras… Cara, eu não sabia fazer nada nas obras, nunca fui de trabalhar como pedreiro. Mas deu para aprender, sem problema. As pessoas que eu conhecia sabiam que eu tinha sido da selecção brasileira, sim. Da selecção para as obras, sem problema!” Num espaço de dois anos trabalhou em Torres Vedras, Tavira, Porto Santo, Elvas e Badajoz (Espanha). Por fim, chegou a Lisboa em 1991.

Conheceu uma mulher, 17 anos mais velha, e juntou-se com ela num pequeno apartamento num bairro social da capital, na zona dos Olivais. Foi aí que começou a montar a banca na Feira da Ladra. Primeiro começou por vender sandes “grandes e deliciosas”, como recordam alguns dos vendedores veteranos daquele lugar. Sempre souberam que ele tinha sido jogador na selecção brasileira, mas nunca o julgaram pela sua queda – não são poucos aqueles que vendem na Feira da Ladra e que já viveram na rua, encurralados pelo consumo de drogas e álcool e pelo crime. Por isso, quando “o pretinho mais charmoso de Portugal” aparecia cambaleante, com os olhos turvos, ninguém o condenava. Mesmo assim, Perivaldo justifica-se: “Pô, um cara também tem que fazer alguma coisa. Quer dizer, um homem não fuma, não fuzila, não consome droga e não bebe? É, isso não dá, não, tem que fazer alguma coisa!” Não é, porém, com o mesmo tom que repete vezes sem conta que o álcool é a sua única dependência. “Nunca fumei nem nunca consumi drogas, isso é certo, e minha mãezinha, que está debaixo de terra, sabe isso com certeza.”

Das sandes passou para tudo o que conseguia arranjar: roupa usada, muitas vezes a própria, sapatos já gastos, mochilas sujas, óculos de sol riscados ou telemóveis obsoletos. Em 2011, saiu da casa nos Olivais. “Eu vivia lá com uma figura que não vale nem a pena falar. Correu mal. Peguei nas minhas coisas, saí porta fora e fui à minha vida.” Chegou a dormir na rua, mas nunca por muito tempo – sempre que conseguiu, ficou alojado nos albergues nocturnos de Lisboa, onde as regras apertadas são uma contrapartida em troca de um tecto, cama, roupa lavada e jantar. Todos os dias às sete da manhã a sirene despertava-o para a saída obrigatória do albergue. Por isso não era difícil para ele estar todos os dias às oito em ponto na Igreja de São Domingos, em Lisboa. De mãos levantadas durante a missa, deixava sempre o mesmo pedido: “Deus de Abraão, me dê uma força para eu voltar para a minha terra”.

“Está voltando, não é meu camarada?”

Alfredo Sampaio está quase a terminar a sua intervenção na conferência de imprensa na sede do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol em Lisboa. Anunciou que se o ex-jogador quiser ir viver para o Rio de Janeiro terá um apartamento pago pelo sindicato. Em troca, terá de trabalhar nesta organização, juntamente com outros 12 ex-atletas. Pode também aceitar a proposta do União Central Futebol Clube, um clube da divisão C do campeonato carioca, que lhe ofereceu o posto de treinador. Certo é que faltam 11 horas para o ex-internacional entrar num avião com destino ao Rio de Janeiro. “Está voltando, não é meu camarada?”, diz, olhando para Perivaldo, que pela primeira vez abre a boca para falar nesta sala. “Graças a Deus”, responde-lhe. Alfredo Sampaio pára de falar, os jornalistas vão até à mesa para colocar os microfones à frente de Perivaldo.

“A emoção é tanta que me faltam as palavras”, diz, para de seguida falar durante 17 minutos sem pausa. Agradece, muito. Ao Alfredo Sampaio, “não só pela competência mas também pelo coração”; ao Nilton por “uma brincadeira que se tornou realidade”; à Globo por ter trazido o seu caso “à tona”; à imprensa portuguesa, com especial menção à SIC, que o ajudou e acompanhou tanto “que até a cor do meu papel higiénico eles sabem”; e ao povo de Lisboa, “terra de homem bom e mulher muito boa”. Lamenta-se, também. Porque “nós somos bonitos quanto estamos com o bolso bonito, mas se o bolso está roto, ‘pô, aquele cara é feio, o Perivaldo é feio para caramba!’”. Porque “os traíras, os crocodilos”, aqueles que era os seus melhores amigos, lhe viraram as costas quando ele mais precisou deles, provando que “a pior raça que existe é a raça humana”. Chorou, também, um pouco e com as mãos a taparem a cara quando falou da mãe, que não conseguiu ver antes de morrer. “Antonieta, a mulher porreta.” Atrapalhado pelas lágrimas, que só surgem quando fala na mãe, põe fim à sua intervenção. “Então eu agradeço assim, para não me esticar muito, se não a corda pode rebentar.” A voz já lhe falta, mas sai da sala a cantar com as mãos ao alto, como faz na missa: “A todo Portugal, a toda a imprensa de Portugal, aquele abraço!”.

À saída da conferência de imprensa é-lhe perguntado se está nervoso por regressar ao Brasil. Há uma onda de expectativas à volta dele, a imprensa não o vai largar nos próximos tempos e a sua vida vai estar sob escrutínio a cada momento. Com a maçã verde na mão esquerda responde: “Nervoso? Vou estar nervoso para quê? Rapaz, eu já tive o Maracanã inteiro a gritar meu nome, e era agora que ia dar para eu ficar nervoso? Só calma, meu irmão.”