Outubro de 2013 e Julho de 2014: uma família a navegar

Em Outubro de 2013, a família de Mário vivia com 179 euros. Nove meses depois, regressámos a Famalicão para saber se o tempo trouxe consigo algumas mudanças. Elas existem, mas são temporárias. Por enquanto, o “barco” navega em águas tranquilas.

Maria José Oliveira

Julho 2014

Mário lembra-se daquele momento como se tivesse acontecido ontem. Estava há poucos dias a trabalhar como vendedor de electrodomésticos e pediram-lhe para procurar clientes em Felgueiras. “Cheguei a um cruzamento e parei. Não sabia se deveria ir para a esquerda, para a direita, em frente, ou voltar para trás. Não tinha uma rota definida.”

Esta memória continua presente na vida de Mário, 55 anos. Em 2011, ficou desempregado. E a mulher, Júlia, 52 anos, que sempre trabalhara em fábricas de confecção, já perdera o emprego há cinco anos. Foi então que a vida organizada desta família de Vila Nova de Famalicão começou a desfazer-se. Deixaram de ter dinheiro para pagar o crédito bancário do T4 Duplex e acumularam dívidas. Pedro, o filho mais velho, abandonou o a faculdade no Porto, e Susana, agora com 19 anos, desistiu de se candidatar ao ensino superior. Em pouco tempo, Mário teve de recorrer à insolvência pessoal.

Tinham chegado a um cruzamento. E o que se seguiu não foi uma escolha, mas antes um trajecto errante. Os amigos afastaram-se deles; eles afastaram-se dos amigos. Mário continua a encontrar-se todos os dias com o pai, num café, após o almoço. É ele o seu maior confidente. “Costumo dizer ao meu pai que a minha família parece viver num barco. Por vezes, há alturas, longas, em que viajamos em águas muito agitadas, vivemos aflições para manter o barco à tona da água. Nessas alturas, o barco parece que vai afundar, passamos fome e privações. E há outras alturas, como esta, em que viajamos em águas mais calmas.” Em Outubro do ano passado, as águas estavam agitadas. A família vivia dos 419 euros do subsídio de desemprego atribuído a Mário, pagavam uma renda de 240 euros no apartamento que encontraram a poucos quilómetros de Famalicão, sobrava-lhes 179 euros para alimentação, gás, electricidade e água. Nesse Verão de 2013, Júlia não pôde comprar uma peça de fruta. “Senti-me muito triste”, conta, “mas às vezes, quando íamos a casa dos meus sogros, ao Domingo à tarde, conseguíamos comer alguma fruta. Só tínhamos dinheiro para o indispensável.” E o “indispensável” era leite, pão, arroz, massa e azeite. Por vezes, Júlia fazia “milagres”, salienta Mário. O frigorífico estava vazio, mas à hora das refeições aparecia sempre comida na mesa. Com dois ou três euros, Júlia conseguia comprar numa feira algumas batatas, cebolas e feijão verde. Noutros dias, os jantares resumiam-se a batatas cozidas com ovo.

©osomeafuriaPedro e Susana arranjaram trabalho

Nove meses depois, no segundo andar do prédio de quatro pisos, não se notam muitas alterações. A sala, ampla e luminosa, continua igual: um sofá, dois maples, uma televisão sobre um móvel, e, num canto, junto a uma das janelas, vêem-se três estantes com volumes de uma enciclopédia, romances de espionagem e policiais. Mário fora correr durante a manhã, num parque próximo de casa. É um hábito que vem da sua juventude. E agora gosta “mais” de o fazer, porque a corrida também pode ser um lenitivo. “Noto que me ajuda a libertar a tensão”, afirma, apontando que corre três vezes por semana.

Conseguiu prolongar por mais alguns meses o subsídio de desemprego, mas não desistiu de procurar trabalho, apesar de as respostas “serem sempre as mesmas”. Há quase três anos que a procura se transformou numa rotina: “Preencho as fichas, deixo ficar, aguardo, depois dizem-me que não.” Outros empregadores avisam-no logo que não aceitam pessoas com a idade dele. Não foi o que aconteceu há alguns meses, quando Mário ouviu os responsáveis por um armazém de bebidas, que necessitavam de um vendedor, dizerem-lhe que “iam pensar”. Durante umas semanas, ficou ansioso. Mas a resposta veio a revelar-se negativa – precisavam de alguém mais novo. “Lamento que as entidades empregadoras não dêem valor a quem tem experiência. Percebo que algumas áreas exijam pessoas mais jovens, mas nas vendas o que interessa são os anos de experiência.” Mário parece falar com alguma revolta, mas depressa ela dá lugar a um abatimento que se nota no rosto. Júlia observa que o marido perdeu alguma paciência, sobretudo quando espera, horas a fio, numa qualquer repartição pública que não tem funcionários suficientes para acelerar o atendimento. “Acho que deixei de ser tão tolerante”, observa ele.

Júlia está sentada ao lado de Mário. Conta que, durante a manhã, o dono de uma mercearia perto de casa deu-lhe um saco de pêssegos que, já muito maduros, estavam destinados às galinhas. Ela ri-se. “Estavam bons para fazer doce”, diz, enquanto se dirige à cozinha. Quando regressa traz uma taça com doce de pêssego, ainda morno, e serve o mesmo com bolachas de água e sal. A família continua a levar uma calculadora quando vai às compras, mas nos últimos nove meses aconteceram algumas mudanças naquela casa.

Em Dezembro, Júlia conseguiu trabalho num restaurante, como cozinheira. Entrava às 09h00 e saía às 15h00, regressava às 18h30 e não tinha horário de saída. Inicialmente propuseram-lhe um contrato sem termo, mas, pouco depois, disseram-lhe que ficaria apenas três meses. Em Março, estava novamente em casa, sem trabalho, com tempo para ajudar uma amiga, proprietária de um hotel para animais de estimação, que, em troca de algumas horas de trabalho, lhe dá alimentos e roupa.

Há cerca de um mês, começou a trazer algum dinheiro para casa: aos fins-de-semana e, por vezes, às quartas-feiras, trabalha na cozinha de uma churrasqueira. Por semana recebe entre 30 e 40 euros e há dias em que traz o jantar para toda a família. “Já ajuda”, diz. Mas ainda não é suficiente para pagar o condomínio porque há contas mais prementes para serem saldadas, nomeadamente as dívidas relativas ao consumo de água, da casa antiga e da actual, que se foram acumulando e que exigiram a negociação de um plano de pagamentos. Naquele prédio de quatro pisos e oito apartamentos, Mário e Júlia não conhecem quase ninguém. “Ele tem vergonha de encarar os vizinhos por não pagar o condomínio”, explica ela.

Nesta tarde, Pedro e Susana não estão em casa. Ambos conseguiram, há um mês, arranjar emprego, com contratos de três meses. Pedro continua a trabalhar, “quando pode”, aos fins-de-semana, num centro cultural em Guimarães – no ano passado, após abandonar os estudos superiores, era a sua única ocupação. Mas agora trabalha numa empresa de fabrico de máquinas e de processamento de materiais metálicos a laser, na qual já tentara entrar várias vezes. “Tem lá amigos e, na última vez que foi lá, teve sorte”, diz o pai, preocupado por ele ir todos os dias de bicicleta para a fábrica e pelo “trabalho árduo”. “Ele gosta é de desenhar…”, continua, notando, logo a seguir, que recorrentemente pede ao filho para dar o seu melhor. “Ele chega a casa cansado, nós vemos isso, mas nunca se queixa. Quer é estar activo, quer ajudar”, diz Júlia. O primeiro ordenado de Pedro, correspondente ao salário mínimo, contribuiu bastante para as contas familiares: uma parte foi aplicada nos pagamentos da água e do telefone, e compraram-se alimentos; a restante, ficou para ele.

Depois, chegou o salário, igualmente mínimo, de Susana. Que, em Outubro do ano passado, estava prestes a entrar num call-center de uma operadora de telecomunicações, no qual lhe pagariam 200 euros. Não ficou lá uma semana. No primeiro dia de trabalho, parecia entusiasmada. Mas após a formação e quando a deixaram sozinha a tentar convencer uma pessoa, do outro lado da linha, a aderir ou a comprar um produto, a sua timidez bloqueou-a. “Sentiu-se intimidada e disse-me que não queria fazer mais aquilo”, lembra a mãe. Saiu do call-center tal como entrou, sem dinheiro nos bolsos.

Mas não desistiu de enviar currículos e, num site de ofertas de emprego, descobriu que uma empresa familiar situada nas redondezas de Famalicão, dedicada a decalques cerâmicos, procurava funcionários. Chamaram-na para uma entrevista e gostaram daquela jovem reservada, que um dia gostaria de ser professora do ensino básico. “Está muito contente”, diz a mãe.

Susana recebe o salário mínimo, comprou o passe de 48 euros para ir e regressar do trabalho de camioneta, e todos os dias leva o almoço preparado pela mãe. Do seu primeiro ordenado retirou dinheiro para dar aos pais, para pagar as contas da casa, ofereceu uma blusa e um soutien à mãe, e comprou algumas roupas para ela. Mário interrompe para dizer que não precisa de roupa. Mostra a camisa que tem vestida, de marca cara, e diz que foi oferecida, assim como as calças, pela senhora que tem o hotel para animais. “É ela quem me costuma dar roupa.” O problema, continua, são os sapatos. Aqueles que tem calçados, de verniz preto, são os únicos que possui. E já não estão em muito bom estado: Mário levanta o pé e mostra um buraco na sola. “Não tenho vergonha de dizer que está furado”, diz, ri-se, e lembra que, enquanto não chover, serão o seu único calçado.

Durante os três meses de trabalho como aprendiz, Susana espera conseguir amealhar dinheiro suficiente para finalmente colocar um aparelho dentário. Júlia diz que a filha “tem muitos complexos por causa dos dentes” e que, por isso mesmo, “raramente sai com os amigos”. “Não reparou que ela quando se ri tapa a boca com a mão?” Mas há outro entrave que impede Susana, assim como Pedro, de sair à noite com amigos: o dinheiro, que, contado mensalmente até ao último tostão, não permite gastos com jantares, bebidas, táxis.

 A gente é que sabe”

Depois de uma fase em que as carências eram mais notórias, a família vive agora, como diz Mário, um período “mais calmo”. Embora admita que esta “tranquilidade” é “temporária”. “Quando as coisas estão mais calmas já conseguimos olhar para o lado, já ouvimos os passarinhos. Passei a desvalorizar aquilo que antes era um problema e que agora já não é, em comparação com as tormentas por que passámos.” Quando Júlia conseguiu trabalho no restaurante, em Dezembro, a família julgou que a vida poderia melhorar. “E, de repente, soubemos que, afinal, não iria ser assim.” Seguiu-se um período de tormenta, mas quando os filhos arranjaram emprego, regressou a calma. “Basta-nos ter dinheiro para pagar as contas e isso já é bastante bom”, afirma Mário.

Mas há outras carências que subsistem. Mário deixou de ter amigos, “aquilo que habitualmente se chamam os amigos dos copos”. Passa muito tempo com o pai e alguns dos irmãos. Mas fazem-lhe falta os amigos. “Nós temos necessidade de falar com outras pessoas, de ter amigos, e isso já não existe.” Mais do que Júlia, é ele quem mais sente esta falta. Embora assuma que também se afastou de algumas pessoas, devido às novas circunstâncias da sua vida. “Sou um amigo fiel, que ajudo se puder, e quando isso não acontece da parte dos outros, não consigo ficar calado, tenho de dizer. Não estamos à espera que nos dêem coisas, só queríamos que não desaparecessem, que não deixassem de telefonar.”

Mário começa a enterrar-se no sofá, os olhos brilham: “É dramático. Isto contado, enfim… A gente é que sabe.”  

Todos os nomes nesta reportagem são fictícios.