Ó professora, como é que se diz “sapato” em mandarim?

Em São João da Madeira, a “capital do calçado”, já não há um miúdo de oito ou nove anos que não saiba começar uma conversa em mandarim. As aulas são financiadas pela autarquia que, a longo prazo, quer ver estas crianças a fecharem negócios com a China.

João de Almeida Dias

Outubro 2013

Mal os caracteres chineses aparecem projectados no quadro electrónico, Tiago Durães pula da cadeira como se de repente se tivesse sentado em cima de um lápis acabado de afiar. Já de pé e de braço no ar, a partir da última fila de mesas do lado esquerdo da sala de aula, o rapaz de nove anos lê os caracteres em voz alta antes que algum colega o faça primeiro: “Ni háo má?”.

– Isso mesmo, muito bem! – avalia uma das duas professoras de mandarim, a portuguesa Mónica Amaral.

– Ni háo má? – lança a outra professora, Camila, chinesa de 20 anos, encarregue de ensinar a fonética do mandarim à turma do 4º ano da Escola Básica de Carquejido, em São João da Madeira.

“Ni háo má?”, devolve-lhe a turma em coro. Camila insiste, e as crianças repetem a deixa. À terceira repetição, já mal se notam as diferenças entre mestra e alunos. “Eu sei o que isso quer dizer! É ‘estás bom?’”, interrompe Francisco Lima, também na última fila, mas do lado direito da sala. Embora não demonstre o entusiasmo do seu colega Tiago, Francisco, debruçado sobre a carteira numa postura sonolenta e com a cabeça apoiada na mão, responde a todas as perguntas lançadas pela professora.

“E sabem o que é que quer dizer ‘má’?”, pergunta a professora Mónica em desafio. “É a partícula de interrogação!”, apressa-se a responder Francisco, já espevitado. “E qual é a sua função, Francisco?”, devolve-lhe a professora. O miúdo, com uma camisola roxa que só por ser vestida por um rapaz não se diz que é cor-de-rosa escuro, responde confiante: “É para fazer perguntas, sempre que há uma interrogação tem de se usar o ‘má’”. “Se não houver ‘má’, deixa de ser uma pergunta!”, completa Tiago, ainda de pé, no lado esquerdo da sala. O resto da turma ouve-os num misto de atenção e paciência, já acostumada ao habitual despique entre os dois rapazes, às terças-feiras de manhã.

– E sabiam que ‘háo’, além de significar ‘bom’, também é usado sempre nas palavras femininas? – relembra a professora Mónica.

– Sim! – devolve-lhe a turma em coro.

– Então isso quer dizer que tudo o que é feminino é bom, que bonito! – lança a professora em jeito de provocação aos rapazes da turma.

– Antes pelo contrário, tudo o que é feminino é péssimo! Bleeergh! – reage Francisco, provocando risos na turma, onde as mesas são todas partilhadas por um menino e uma menina.

De pé no fundo da sala Xana Bastos, a professora que ensina todas as disciplinas a esta turma do 4º ano à excepção de mandarim e inglês, assiste à aula com os olhos semi-cerrados. Ocasionalmente olha para a ficha dos exercícios, numa tentativa de seguir a lição. “Eu já não percebo nada disto, Deus me valha. Eles é que entendem tudo, ó para eles, tão inteligentes que eles são”, murmura.

Entretanto, os alunos vão aos pares para a frente do quadro ler um diálogo. Além dos caracteres chineses, não há qualquer sinal do alfabeto romano ou de uma transcrição fonética. Nada que assuste Francisco e Laura, dona de uns caracóis loiros dignos de um anúncio de champô. Diante dos colegas, olham para a ficha calmamente e começam a lê-la:

Francisco – Ni háo. Wô jiaó Francisco. Nin ji jiaó shén má ming zi? [Olá. O meu nome é Francisco. E tu, como é que te chamas]?

Laura – Wô jiaó Laura. Ni háo má? [O meu nome é Laura. Tudo bem?]

Francisco – Wô hen háo, shié shié! [Está tudo muito bem, obrigado!]

Repetem uma vez, trocando as deixas. Quando o exercício termina, Francisco e Laura regressam aos seus lugares com a sensação de dever cumprido.

Tiago, Francisco e Laura fazem parte dos primeiros alunos a ter aulas de mandarim em escolas básicas do ensino público em Portugal. Os caracteres chineses entraram nos cadernos destas crianças de São João da Madeira em Janeiro de 2013, fruto de uma ideia da câmara municipal, dos agrupamentos de escolas do concelho e da Universidade de Aveiro. A iniciativa começou por ser testada com alunos do 3º ano no ano lectivo passado. Nessa altura, de um universo de 300 alunos, apenas 3 escolheram não aprender mandarim. Este ano, após avaliações positivas do Ministério da Educação que deram luz verde para o projecto avançar, as aulas foram alargadas à 4ª classe e passaram a ser obrigatórias.

O objectivo é estender, ano após ano, o ensino do mandarim até ao 12º, mesmo que em regime facultativo. “É esse o compromisso da câmara”, garante a vereadora da Educação da autarquia são-joanense, Dilma Nantes. Mesmo que isso signifique que a autarquia, única financiadora do projecto, passe a pagar valores mais altos do que aqueles que já pôs de parte para este ano lectivo – cerca de 36 mil euros, o equivalente a 60 euros por aluno. “Nós olhamos para este programa como um investimento, não é uma despesa”, assegura a vereadora.

Não foi por acaso que a ideia de tornar obrigatório o ensino de mandarim para as crianças do ensino básico surgiu nesta cidade com pouco mais 21 mil habitantes e que fica a meio caminho entre Aveiro e o Porto. A par de Felgueiras, é de São João da Madeira que sai grande parte dos 71 milhões de pares de sapatos que Portugal exporta anualmente. Deste total, a maioria das exportações ainda é para países da União Europeia, mas é junto mercado chinês que os números estão a crescer mais. 

Só nos últimos três anos o valor das exportações de sapatos para a China triplicou e estima-se que o negócio atinja até ao final deste ano os 22 180 milhões de euros. É um valor residual, quando se pensa na totalidade dos 1,6 mil milhões de euros que as exportações de calçado rendem à economia portuguesa, segundo dados da Associação Portuguesa de Industriais do Calçado (APICCAPS). Só 1,4% das receitas vêm da China. Mas em São João da Madeira, poucos duvidam que estes números podem alcançar outras proporções se a economia chinesa continuar a crescer, erguendo consigo uma nova classe média para a qual um mero par de sapatos não chegará. Quando essa altura chegar, espera-se que Tiago e Francisco saibam falar mandarim. Para além de simples saudações, terão de saber fechar negócios.

©osomeafuria“Mandamos o Cavaco Silva para a China!”

Quando Tiago e Francisco se sentam nos bancos coloridos do canto de leitura da biblioteca da escola e pensam no que acontecerá daqui a uns anos, não é de negócios que falam. É de guerra. Tiago, ávido jogador de Call of Duty, uma conhecida saga de videojogos, dá o mote: “Daqui a uns 20 anos o mundo vai estar dividido ao meio. Metade é para Portugal e metade é para a China. E depois já se sabe, vai dar guerra!”. Escangalha-se a rir enquanto fala, ciente da improbabilidade deste cenário. Mas no meio das gargalhadas vai traçando as linhas gerais do conflito luso-chinês. “Vai haver mísseis e bombas atómicas por todo o lado. Eu sei do que falo, eu jogo Call of Duty!”

Francisco junta-se a Tiago. “Depois, durante a guerra, Portugal vai construir uma muralha como a dos chineses, só que a nossa vai ser assim um bocado a Norte de Lisboa. Nós não queremos Lisboa para nada! Os chineses que fiquem com aquilo, que aquilo é só trânsito!”, dita, com a voz entusiasmada a ecoar pelas paredes da biblioteca infantil. “Mas atenção, que nós ficamos com o Algarve!”, lembra-se, incapaz de entregar o seu destino de férias preferido aos chineses. “Aproveitamos e vamos até ao Forte de Sagres. Depois é só meter o Cavaco Silva dentro daqueles canhões que estão lá e dispará-lo direitinho para a China! Fiquem com ele!”

Quando sabe do futuro que o seu filho Francisco desenha para Portugal, Hugo Lima ri-se, no jeito de quem já ouviu esta conversa e outras semelhantes em casa. Hugo é chefe de vendas na Carvalho & Lima Lda., uma pequena-média empresa do sector do calçado que ainda é gerida pelos avós do pequeno Francisco. Quando chega à escola do seu filho ao volante uma carrinha de mercadorias branca, traz calçados uns sapatos de camurça azuis costurados com linhas brancas. Fabricados em Portugal, claro.

“A nossa empresa concentra-se mais no mercado interno. Temos três lojas, uma em São João da Madeira, uma em Aveiro e outra em Águeda. E também vendemos sapatos a outras lojas portuguesas. Como somos pequenos, é só isto que nos interessa, e não tanto as exportações”, explica Hugo. Será um Francisco mais velho e fluente em mandarim a mudar o perfil da Carvalho & Lima Lda.? “Agora é muito cedo para falarmos disso, que o Francisco é muito novo, ele ainda vai dar muitas voltas até decidir o que vai fazer”, responde.

Certo é que são várias as vezes em que Francisco chega a casa a falar mandarim. De regresso das aulas de viola ou dos treinos de andebol, o rapaz cumprimenta a família com um “ni háo”, como se já não conhecesse a palavra “olá”. Ou então, quando lhe passam o sal à mesa das refeições, agradece com um “shié shié”. “Já houve alturas em que o Francisco metia mandarim na conversa sempre que podia. Palavras, números, tudo. E nós só lhe dizíamos ‘ó Francisco, tem lá calma, que nós não percebemos nada disso’”, conta o pai, lembrando estes episódios com orgulho.

Também é nesse tom que a mãe de Tiago, Catarina Durães, fala do seu rapaz. “Se este projecto for para avançar enquanto ele andar na escola, então acho que no ritmo a que ele está a aprender, é provável que fique a falar o mandarim como os mais velhos de hoje em dia falam inglês”, prevê a educadora de infância.

O truque, garante a professora de mandarim da turma de Tiago e Francisco, é a aposta na oralidade. “Mais importante do que escreverem bem, de forma perfeita, o que nós queremos é que eles falem o suficiente”, diz Mónica Amaral, que estudou mandarim na licenciatura de Línguas e Relações Empresariais na Universidade de Aveiro. “Se tivermos isto em mente, então é fácil ensinar estas crianças, porque é com esta idade que eles conseguem aprender mais facilmente, sem barreiras.”

Fazer os TPC na loja dos chineses

A reacção dos pais, nota Sílvia Augusto, directora adjunta de um dos três agrupamentos escolares de São João da Madeira, tem sido de surpresa. “Eles inicialmente achavam que isto ia ser só uma brincadeira, mas agora perceberam que isto é para aprender, e o resultado disso é que os miúdos voltam para casa a dizer coisas em mandarim”, explica, também ela mãe de uma destas crianças. “Nestas idades eles são umas esponjas. Eu, por exemplo, não conseguiria aprender nada daquilo”, reconhece a mãe de Tiago, aliviada por não ter de ajudar o filho com os trabalhos de casa de mandarim. Por sorte, estes são sempre feitos na escola, logo a seguir à aula.

Fortuna diferente tem um aluno do 4º ano que vive perto da loja Bazar Ásia-Europa, do Centro Comercial Castilho, no coração de São João da Madeira. “A professora diz que são trabalhos de casa, por isso é para fazer em casa, não é?”, conta a rir Zhou, dona da loja. “Então ele às vezes vem cá com os papéis, para pedir ajuda, porque não quer fazer erros”, explica.

Em Janeiro, quando as crianças, então no 3º ano, começaram a ter aulas de mandarim, Zhou foi surpreendida pelos seus clientes mais novos. “Eles vinham à loja com as mães, olhavam para mim e diziam ‘olá’ em mandarim! ‘Ni háo!’.” Agora já está habituada, e vê alguma justiça nestas aulas. “Acho bem, não somos só nós a aprendermos a vossa língua! Se os portugueses falarem mandarim, assim vamos passar a falar mais uns com os outros!”

Baixa e redondinha, Zhou fala em português com uma mistura de sotaque chinês e nortenho, rematando todas as frases com um sorriso. Desde que saiu de Shenzhen, uma cidade com a mesma população de Portugal, no Sudeste da China, e foi para São João da Madeira, nunca teve aulas de português. Doze anos volvidos, consegue comunicar facilmente com os clientes, errando ocasionalmente uma palavra ou outra. Mas, para além de entender, faz-se entender. “Se fala errado ou enganado não faz problema nenhum, o problema é se não fala nada. Isso é que é mau”, afirma, enquanto coloca as compras de uma cliente num saquinho e o sistema de som da loja passa o noticiário das 15h.

Ao lado de Zhou, o seu marido Wang está concentrado enquanto muda a pilha a um relógio de pulso de uma outra cliente. Wang fala pouco português, bem menos do que a sua mulher. Mas são várias as vezes em que diz: “Aprender mandarim é bom. É bom para os negócios.”