O olival e os 40 ladrões

Em Campo Maior há produtores de azeitona que partem todas as noites para os seus olivais de caçadeira em punho. Os furtos são cada vez mais e a paciência começa a escassear. Os roubos são invariavelmente apontados à comunidade de 250 ciganos que vivem naquela vila do Alto Alentejo.

João de Almeida Dias

Janeiro 2014

Assim que entra no seu olival, Lourenço Ribeiro desliga os faróis da sua carrinha de caixa aberta. Bastam cinco segundos para que o olivicultor torne a ver no meio da escuridão, distinguindo a estrada. Com a mão esquerda no volante, mantém a viatura no meio do caminho de terra enlameada, ao mesmo tempo que alcança o banco de trás com a mão direita. É de lá que tira o casaco que usa para tapar as luzes do rádio e do ar condicionado, deixando a descoberto uma caçadeira de dois canos. À medida que a carrinha avança, sempre abaixo dos 10 quilómetros por hora, só se ouve o rugido do motor, a tentar levar a melhor contra o piso trapaceiro, e a respiração cavernosa deste olivicultor de 54 anos. Por vezes, quando passa rente à copa de uma oliveira, ouve-se o raspar dos ramos no tejadilho.

Para evitar que as luzes traseiras da carrinha se liguem, Lourenço nunca usa o travão de pé. Seria um erro honesto, mas sobretudo de principiante, e este olivicultor com 18 anos de experiência no ramo não se permite a esse tipo de falhas. Quando chega ao topo da zona mais elevada da herdade, a poucos quilómetros do centro de Campo Maior, pára a carrinha com o travão de mão, abre as janelas e desliga o motor. Por momentos olha em direcção ao horizonte, para lá da fronteira que separa Portugal de Espanha. Perde algum tempo a olhar para as poucas luzes que à meia-noite ainda resistem no El Gurugú, um dos bairros com pior fama de Badajoz. “É a pior cidade portuguesa”, graceja, antes de se concentrar no seu olival. Tem 20 mil oliveiras e veio para guardá-las uma a uma. Virando a cabeça de um lado ao outro, varre o terreno com os olhos como se fosse um farol. Ufano, garante: “Eu metendo-me aqui, não me escapa nada. Se não os vejo, pelo menos oiço-os. E depois se houver problemas, é bom que não duvidem de que a minha caçadeira está ali no banco de trás. E está carregada…”. Ombros de jogador de râguebi e barriga de bom garfo, Lourenço fala com um sotaque meio alentejano meio espanhol, consequência de uma vida passada na raia.

Não demora muito até perder a jactância com que fala, deixando-se levar por um tom que mistura desespero com frustração. Desde Outubro estima já ter perdido uma tonelada de azeitonas. “Eu já cheguei a passar aqui o dia de Natal e o Ano Novo só para ver se não me roubavam mais. Fico sempre umas quantas horas, duas, três, até mais se for preciso. Há quem ache piada a isto, mas o que se passa aqui é muito grave… E dá cabo da cabeça a uma pessoa, eu já começo a ficar maluco com isto.”

Lourenço é um homem orgulhoso que receia estar a ser tomado por parvo. A cada roubo que dá conta,  fica desorientado e triste, quase se culpa a ele próprio e fica sem saber o que fazer. Não é que os furtos lhe tirem, para já, uma fatia considerável da produção. Na verdade, das 20 mil árvores que tem ao seu dispor, apenas 90 foram atacadas. “Mas um roubo é sempre um roubo. E isto é como as abelhas. Eu posso ser mordido no braço. Fico lá com um inchaço e se calhar nem me dói muito. Mas se me mordem no braço, depois num pé, nas costas, na cara e em tudo por quanto é lado às tantas fico todo inchado, não?” É quase por raiva que pelo menos três noites por semana sai de casa depois de jantar, ao fim de um dia de trabalho, para ir guardar as suas oliveiras. Não o faz por capricho – é uma questão de honra. Mas até hoje só guarda desgostos. O maior deles foi nunca ter apanhado um ladrão. “Ando aqui a passar noites e noites todos os anos só para fazer figura de parvo.”

Francisco Ponte Romão, um dos maiores olivicultores de Campo Maior, com cerca de 60 mil oliveiras, tem ao dispor três funcionários que se dedicam à patrulha dos seus olivais. A contar com a sua própria vigilância, garante que só entre a uma e as quatro da madrugada é que não tem ninguém a guardar os seus terrenos. O furto de azeitonas não é novidade, mas este agricultor fala de um aumento de 100% em relação ao ano passado só nos seus olivais. A maneira que muitos produtores de azeitona arranjaram para evitarem os roubos foi antecipar as colheitas. Em vez de esperarem até Janeiro e Fevereiro, quando as azeitonas estão mais maduras e por isso capazes de dar mais azeite, colhem-nas entre Outubro e Dezembro para garantir um mínimo de produção.

Só num dia, durante a tarde, foram detectados três grupos a roubar das suas árvores. “Um dos meus funcionários ligou-me a avisar que andavam cá a roubar. Fui logo ver se os apanhava eu mesmo”, conta, horas depois do incidente. “Peguei na minha caçadeira e no meu jipe e fui procurá-los. Apanhei-os numa carrinha a tentar fugir. Atravessei-me à frente deles na estrada, porque eles estavam praticamente atascados na lama. Era da maneira que não saíam de lá. Eles ainda pararam – e deu para ver quem eles eram, eu conheço-os a todos, eu sei muito bem quem eles são –, mas depois começaram a andar para a frente e para trás, para a frente e para trás, e pronto: conseguiram meter a carrinha a andar e fugiram.” Francisco denunciou a situação à GNR. Perante os guardas, deixou uma promessa: “Garanto que da próxima vez que souber que me andam a roubar, levo a caçadeira e espeto-lhes com uns quantos tiros para cima do carro!”.

“A GNR não tem medo de ninguém”

Sentado atrás da sua secretária, com uma fotografia já datada do Presidente da República, Cavaco Silva, a espreitar-lhe por cima do cabelo curto e penteado, o Tenente Cláudio Godinho, da GNR de Elvas, desaprova o plano de Francisco. “Isso não é desejável. Os agricultores não devem ter pretensões de fazer justiça pelas próprias mãos”, explica. “Tudo bem que ninguém gosta de ver o seu trabalho dizimado, até porque é o esforço de um ano inteiro. Mas são as autoridades que têm a função de combater o crime de forma activa, não os cidadãos.”

O militar fala com orgulho do seu destacamento, responsável pelos concelhos de Elvas, Arronches, Monforte e, o mais problemático de todos, Campo Maior. No ano passado, a propósito da operação Azeitona Segura 2012, que começou em Outubro e terminou em Fevereiro de 2013, foram detidas 102 pessoas for furto de azeitonas. Desses, 72 foram apanhados em flagrante delito pela GNR de Elvas. “É verdade que os números nos dizem aquilo que nós queremos que eles nos digam. Mas é um facto que o destacamento da GNR de Elvas fez mais detenções e apreensões de azeitona do que todos os outros destacamentos do país inteiro juntos.” Já nesta temporada, a contar desde Outubro, foram feitas 18 detenções, 12 das quais em Campo Maior.

Todos os dias a GNR lança patrulhas, a cavalo, de mota ou em jipes, destinadas à vigilância dos olivais. Em Campo Maior, a guarda conta com 31 militares nos seus quadros. Porém, se forem descontados aqueles que estão de folga, mais outros que são destacados para estar no centro da vila, sobram cerca de dez militares para vigiar todos os olivais de Campo Maior. O Tenente Godinho escusa-se a comentar se tem falta de meios, preferindo dizer, autómato, que tem “de gerir os meios ao dispor da melhor maneira possível”.

A relação entre GNR e olivicultores é, por norma, tensa, com acusações de parte a parte. O Tenente Godinho aconselha os agricultores a isolarem melhor os seus olivais, investindo em muros altos: “É de louvar que cada um queira proteger o que é seu, mas uma coisa é eu fechar o carro, esconder as coisas de valor na mala ou no porta-luvas, e trancar tudo. Outra coisa é eu sair do carro, deixar tudo à mostra, deixar as portas abertas e a chave na ignição e depois queixar-me de que fui roubado.” Por seu lado, Francisco acusa a GNR de ser pouco interventiva e ainda menos compreensiva: “Eles não fazem nada porque têm medo. Eles sabem lá o que é a impotência de ser roubado e não poder fazer nada. A maneira de tratar disto era juntar-se uma data de gente e partir-lhes [aos ladrões] os braços para eles perceberem uma coisinha…”. Do lado da GNR sobram queixas por os olivicultores não fazerem a sua parte: “A GNR não tem medo ninguém, o problema é que se não houver queixas formais após os roubos, nós não podemos fazer nada. Este ano a apanha da azeitona já está quase no fim e ainda só recebemos 10 queixas em Campo Maior.” Lourenço Ribeiro devolve: “Não vale a pena estar a fazer queixa. Uma vez vi aqui uns a roubar, não lhes fiz nada e chamei logo a GNR. Sabe quando é que eles apareceram cá? Já passava hora e meia! Entretanto os ladrões já tinham fugido, é evidente…”

Só quando descrevem os roubos da azeitona é que as duas partes entram em total acordo. Quase todos acontecem ao final da tarde e noite, embora também haja quem os faça em pleno dia. “Segundo a nossa experiência, o modus operandi passa por se juntarem em grupos de dez pessoas, às vezes mais. Deslocam-se em furgões, os chamados ligeiros de mercadorias, tipo Ford Transit, e estacionam à entrada dos olivais”, explica o Tenente Godinho. Luís Machado, também ele olivicultor de Campo Maior, acrescenta: “Aí eles saem das carrinhas e é como se fosse uma operação comando. Estendem os panos debaixo das oliveiras e batem nos ramos com uma força dos diabos. Fazem tudo mal e porcamente. Pás, pás, pás! Dão cabo das árvores todas. Depois apanham os panos com as azeitonas, metem tudo na carrinha e fogem num instante.” Ao volante da sua carrinha, Lourenço conclui: “Pegam naquilo e vão vender tudo a lagares ou a pontos de recepção de azeitona em Espanha a preços abaixo dos nossos.”

E qual é o perfil dos ladrões? “99 por cento”, segundo os olivicultores, e “por norma”, conforme a GNR, são indivíduos entre os 18 e os 60 anos, a maioria homens e de etnia cigana. São os “guitanos” do Mártir Santo.

Muita madeira, pouco zinco e quase nenhum tijolo

Não chove há dois dias, mas o chão de terra batida daquele bairro de barracas ainda não secou. Na verdade, nunca seca, graças ao esgoto que corre rente às portas de cada uma das habitações, como se de um pequeno riacho se tratasse. No pequeno caudal de água e urina, correm também algumas azeitonas. A melhor barraca do Mártir Santo é merecedora de tal epíteto por ter um chão de azulejo. “Esse lá conseguiu juntar uns dinheiros”, refere Vicente Grilo, 58 anos e uma das vozes mais respeitadas no bairro. De resto, a maior parte das habitações tem um chão de cimento ou de terra batida apenas um pouco mais limpa do que a que se vê lá fora. Quase todas as construções são feitas de madeira e chapas de zinco. Cada barraca tem um número pintado junto à entrada – ao todo são 50, e vivem lá 250 pessoas. No meio das casas está a mais antiga igreja de Campo Maior, que serve de armazém e ameaça ruir a qualquer instante. Um pouco por todo o lado estão estacionados carros. A maioria velhos e maltratados, alguns de alta cilindrada.

“A vida aqui é um sofrer”, resume Filipe Oliveira. Das calças de ganga que traz vestidas já não se pode dizer que são azuis. São antes castanhas, da cor da lama seca que trazem agarradas. “Ouça bem o que lhe digo, é mesmo um sofrer. Eu gostava que as pessoas viessem cá ver-nos mais vezes. Devia cá vir era a SIC para verem como nós vivemos. Nós e os nossos gaiatos.” Vicente insiste sempre em falar nas crianças que lá vivem. “Qual é o mal de a gente ir buscar uns três ou quatro sacos de azeitonas se é para darmos comida aos nossos filhos?”. Outro habitante, que prefere não revelar o nome, intromete-se na conversa: “Nós roubamos azeitonas, é claro que roubamos, então se não temos outra maneira de fazer dinheiro como é que vamos fazer para viver? Nós fazemos isto pelos nossos filhos, só eu tenho quatro.” Gesticula freneticamente enquanto fala, abanando as mãos ainda pretas de mexer em azeitonas. “Acha que alguém nos vai dar trabalho? Oiça uma coisa: falar lá de fora é muito fácil, mas a verdade é que a maior parte das pessoas não sabe o que é ser cigano neste país. E pior do que isso é ser cigano em Campo Maior. Quando saímos daqui somos sempre tratados como animais”.

Só por engano é que um campomaiorense se aproxima do Mártir Santo. Situado na parte velha da vila, este bairro de barracas fica dentro de um baluarte da muralha, outrora indispensável para uma pequena vila com vista para Espanha. A maior parte dos habitantes de Campo Maior só lhe conhece a entrada, onde carrinhas velhas e amolgadas são estacionadas aleatoriamente, deixando visível apenas uma pequena parte das barracas de muita madeira, pouco zinco e quase nenhum tijolo.

Os vizinhos do Mártir Santo, a maioria reformados, falam da difícil relação que têm com a comunidade cigana. Um deles, que pede para não ser identificado, lembra o que garante ser apenas uma de muitas histórias: “Uma vez chegou-se um cigano cá a casa, bateu-me à porta e foi educado comigo. Perguntou-me se eu lhe podia dar algum dinheiro, que ele precisava. Eu disse-lhe: ‘Ó, homem, eu sou reformado e viúvo, como é que quer que eu o ajude?’. Ele não gostou da resposta e passou-se da cabeça. Desatou aos pontapés à minha porta e às janelas”. Outro, que também pede anonimato, é dos poucos que a partir da sua varanda consegue ver o Mártir Santo inteiro. “É o terceiro mundo dentro de Campo Maior. Campo Maior, hã? A terra do café, a terra da Delta, que só traz é coisas boas! E depois temos aqui esta miséria!”

©osomeafuria“A amiga dos ciganos”

Além de fonte de tensão, o assunto da comunidade cigana de Campo Maior é também um tema tabu. Numa vila onde a economia local deve toda a sua pujança ao grupo Delta, da família Nabeiro, poucos são aqueles que arriscam desequilibrar o ambiente de aparente harmonia vivido naquela localidade. Porém, em surdina, são muitos os que criticam um dos membros do clã Nabeiro por este ajudar a comunidade cigana. Porque faz chegar carregamentos de lenha até ao Mártir Santo; porque os deixa sair do supermercado Alentejo, que pertence ao grupo Delta, sem pagarem as compras; porque usa os advogados da empresa para defender os membros da comunidade em tribunal.

É um assunto evitado ao máximo, e quem ousa levantá-lo numa conversa de amigos é prontamente repreendido pelos restantes. “Tu vê lá o que é que vais dizer, não faças nenhuma tontería!”, dizem, de olhos arregalados. Outros escusam-se a comentar o assunto, optando por um silêncio pouco confortável. Até na blogosfera, em que a grande parte dos textos e comentários que tocam neste tema são assinados sob pseudónimo ou escritos anonimamente, o tom é moderado. Muitos ficam-se por um “nós sabemos muito bem quem é que ajuda os ciganos”. É que das quase nove mil pessoas que vivem em Campo Maior, são poucas as que não têm pelo menos uma pessoa a trabalhar para o grupo Delta. E um passo em falso, garantem, “é carta de despedimento na certa”. Por isso, só quando a conversa já vai avançada e lhes é garantido anonimato é que os pronomes e os adjectivos se concretizam num nome. “Ela”, a “amiga dos ciganos”, é Amélia Nabeiro, nora do fundador da Delta, Rui Nabeiro.

Habituada a estar nas bocas do povo, Amélia lança: “Eu estou-me bem lixando para o que as pessoas possam pensar de mim. Eu pago os meus impostos e faço o que quero com o meu dinheiro.” A empresária, natural de Campo Maior e casada com João Nabeiro, não vê razão para as críticas de que é alvo. “Há algum mal em ajudar pessoas que vivem de forma miserável? As pessoas parece que são solidárias fora de portas, mas quando têm aquela miséria à porta de casa não fazem nada.” Amélia garante que ajuda as crianças e as mulheres do Mártir Santo “porque são quem mais precisa”. Apesar de reconhecer que é daquele baluarte que surge muita da criminalidade registada na vila, ressalva: “Os maiores roubos, aqueles que prejudicam muito mais pessoas, os grandes crimes, nunca são feitos pelos ciganos.”

Francisco Ponte Romão, porém, recusa o argumento da dimensão dos roubos. Não há número, por maior ou pequeno que seja, que explique o que lhe vai na cabeça. “Eu mesmo que ganhe o Euromilhões, se me roubarem cinco euros todos os dias, ou até mesmo só um euro, vou ficar passado da cabeça. Os roubos tiram-nos dinheiro, mas isso até parece pouco comparado a outros níveis. Não é só a parte financeira, é a parte psicológica… É fodido, mesmo. É fodido.”