O Filme

Desde há um ano e meio que Xerazade passa as noites em branco, contando histórias ao Rei Shahriar. Com a cumplicidade da sua irmã Doniazade, esta verdadeira maratona não deixa de ser um estratagema das duas irmãs para tentar pôr fim à loucura sanguinária do Rei que, atraiçoado pela sua primeira esposa, decidiu desposar todos os dias uma nova donzela que manda matar ao nascer do Sol. Deixando inacabado a cada noite o relato dos contos que promete continuar no dia seguinte, Xerazade tem logrado escapar a uma sentença de morte anunciada pois o Rei decide sempre poupá-la para continuar a ouvir os contos que tanto o encantam. Irão passar muitas mais noites – no total serão mil e uma – até que Shahriar entenda que não deve matar Xerazade nem desposar outra mulher. Mas isso não faz parte deste filme: o dispositivo narrativo do livro de contos As Mil e Uma Noites é relativamente conhecido e contamos com o facto de fazer parte do imaginário popular colectivo para nos concentrarmos sobretudo nas histórias que Xerazade conta. E essas serão diferentes daquelas que conhecemos do livro.

No livro há contos sobre reis e princesas, mercadores e escravos, pescadores e guerreiros, génios da lâmpada e animais que falam. Há pobres que se tornam ricos. Há poderosos que de um momento para o outro tudo perderão. Há fábulas com uma moral evidente e histórias anárquicas sem moral aparente. Alguns contos são cómicos, outros são trágicos; também os há libertinos e puritanos… Quase todos têm um toque de surrealismo e um excesso que se materializa na violência, no erotismo e no sarcasmo. Passam-se em cidades do Médio Oriente, na Índia, no Norte de África, na China…

No filme, as histórias que Xerazade conta passar-se-ão em Portugal. Não num Portugal contemporâneo aos contos do livro, mas no Portugal de hoje, em crise económica e ebulição social. O Portugal de 2013 e 2014, habitado por ricos e pobres, poderosos e insignificantes, trabalhadores e desempregados, ladrões e homens honestos. Marcado pelas consequências da crise, também um Portugal delirante e de excessos.

O que se pretende com este filme é fazer duas coisas em simultâneo: 1) retomar o espírito delirantemente ficcional de As Mil e Uma Noites e sobretudo reafirmar com ele e através dele o vínculo que une o Rei e Xerazade (a imperiosa necessidade de histórias), e 2) traçar um retrato ou uma crónica de Portugal durante um ano (num momento em que o país está sujeito aos efeitos da “austeridade” criados pelo programa de assistência financeira da Troika). Ficção e retrato social, tapetes voadores e greves. Aparentemente dimensões que não estão ligadas ou pelo menos que nos habituamos a arrumar em diferentes gavetas. Mas imaginário e realidade nunca puderam viver um sem o outro (e Xerazade bem o sabe).

Devido à natureza do projecto esta sinopse de filme vai cada vez menos se parecendo com uma sinopse. Na realidade, as histórias de Xerazade nesta nossa versão de As Mil e Uma Noites baseiam-se em eventos que ainda não tiveram lugar – aqueles que se irão passar em Portugal durante os próximos doze meses. Assim é impossível descrever o que será o filme numa sinopse. O máximo que poderemos aqui fazer é reiterar o princípio básico da estratégia da contadora:
conseguirá Ali Babá sair da caverna antes da chegada dos 40 ladrões? Conseguirá Portugal evitar um segundo resgate financeiro e voltar aos mercados?

(Nesse momento da narração, Xerazade viu despontar a manhã e, discretamente, calou-se).

Miguel Gomes