No divã do sindicato

A austeridade alargou as competências das centrais sindicais. À UGT e à CGTP não chegam apenas problemas de trabalho. Os dirigentes passaram a ser confidentes dos trabalhadores e desempregados que recorrem aos sindicatos muitas vezes apenas para desabafar.

Maria José Oliveira

Rita Ferreira

Outubro 2013

O desemprego é um buraco. Depois de ali cair, o cidadão olha para cima e vê luz, mas precisa de ajuda para sair; olha para baixo e confronta-se com a possibilidade de escavar mais fundo. Quando o auxílio tarda a chegar, os dias tornam-se pesados e demasiado longos. O cidadão escolhe escavar e, por vezes, nem sequer se apercebe que está quase enterrado na cova que fez com as suas próprias mãos. Perdeu a confiança em si próprio e nos outros, negligencia a aparência, mescla pensamentos de rancor e mágoa, esquece a esperança.

Quase todos os dias, Ricardo Pocinho, presidente da UGT em Coimbra, tem à sua frente, numa cadeira do seu gabinete, uma pessoa nestas condições. Algumas surgem com perturbações psiquiátricas; outras estão debilitadas por doenças psíquicas (depressões, ansiedade, toxicodependências); outras ainda precisam apenas de conversar. Em todas elas, o dirigente sindical observa um sintoma comum: a solidão. Mas trata-se aqui de uma solidão provocada sobretudo pelo sentimento de exclusão que a sociedade incute em quem não tem trabalho – os desempregados como uma classe minoritária que merece repúdio.

Em todo o distrito de Coimbra são 30 mil cidadãos, na sua maioria jovens. Mas no Gabinete de Apoio e Aconselhamento ao Desempregado, “único a nível nacional”, nota Ricardo Pocinho, entram pessoas de todas as idades, formações e origens sociais, numa afluência que tem vindo a crescer desde 2009. E o nome pode induzir em erro, pois a este gabinete, composto por Ricardo, que é jurista, uma assistente social e uma psicóloga, recorrem igualmente trabalhadores, sindicalizados ou não, que estejam a braços com dificuldades financeiras ou com conflitos laborais.

Num momento em que o país continua a tentar sobreviver a uma crise económica e financeira, a central sindical deparou-se com a necessidade de alargar as suas competências. E isso abrangeu os seus funcionários e dirigentes que, como Ricardo Pocinho, se converteram de um dia para o outro em improvisados psicólogos e improváveis confessores. “Todos na vida somos um pouco psicólogos. Basta compreender a nossa mente para compreender a dos outros”, explica o pragmático líder da UGT/Coimbra.

Por vezes, há quem utilize artifícios para esconder uma necessidade premente de conversar, de desabafar e de chorar. Um problema no emprego, a falta de pagamento de salários ou a procura incessante e frustrante de trabalho consistem muitas vezes em pretextos para desfiar mágoas, contar conflitos familiares, verbalizar o que vão sentindo quotidianamente. “A maioria das minhas conversas acaba com as pessoas a falar dos maridos ou das mulheres, dos filhos… Depois de quebrado o gelo, choram. Choram logo no início ou no fim.”

Atendendo aos casos que surgem diariamente no Gabinete de Apoio e Aconselhamento ao Desempregado, Ricardo decidiu firmar um protocolo com a Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, para onde são encaminhados os cidadãos que precisam de um apoio mais especializado. Mas o dirigente sindical acredita que “quem está verdadeiramente necessitado” não chega a recorrer à ajuda da central sindical. “Não aparecem por vergonha, muitas vezes para esconder doenças psicológicas ou psiquiátricas.”

Crente convicto no poder abrangente das acções de formação, Ricardo Pocinho defende que estas iniciativas podem transformar-se num bálsamo para quem está desempregado. Todos os que recorrem ao Gabinete da UGT em Coimbra são convidados na Operação Desempregados, um plano nacional de formação de 200 horas e três cursos que devolve os cidadãos à “vida activa” – “e que não significa necessariamente a entrada no mercado de trabalho”, realça Ricardo. Porque o importante aqui é “fazê-las sentir que estão de novo a contribuir para a sociedade” e insuflar-lhes doses maciças de algo que perdem todos os dias: a auto-estima. Há ainda uma outra mais-valia, acrescenta o sindicalista: “Quando estamos ocupados a possibilidade de ser abordado por empresas é maior. Por isso, quando se pode dizer que se está a fazer uma formação ganha-se mais um ponto na probabilidade de se conseguir trabalho.”

Cada um dos cidadãos pode frequentar os três cursos – Relações Laborais; Técnicas Administrativas; e Higiene e Segurança no Trabalho –, “pode saltar de formação para outra formação” e, em simultâneo, ganhar algum dinheiro (146 euros) e derrubar algumas barreiras. “Nota-se que ficam mais animados, conhecem outras pessoas, compreendem as dificuldades uns dos outros, criam-se relações interpessoais”, diz Ricardo, ressalvando que há também pessoas que, oriundas de “um grande isolamento, não conseguem mesmo conviver com os outros”. Por isso, há um cuidado redobrado na escolha dos formadores, que, entre outros imprevistos, já tiveram de lidar com agressões entre formandos ou depararam-se com pessoas que, devido à dosagem de medicação de ansiolíticos e antidepressivos que tomam, adormecem frequentemente nas aulas.

Ricardo não desiste de acreditar nestas formações. Até porque ele vê, quase todos os dias,  transformações nas pessoas que lhe bateram à porta do gabinete a pedir ajuda. “Algumas começam a cheirar melhor!”, diz, rindo. “Há pessoas que aparecem aqui depois de estarem há meses fechadas em casa e cheiram mal. Quando começam a formação há muita coisa que muda nelas.” Como aquele senhor que, após um internamento provocado por uma tentativa de suicídio, entrou num dos cursos e algum tempo depois informou Ricardo de que, a conselho médico, já tinha conseguido deixar de tomar alguns medicamentos. Ou o outro cidadão que, com 50 anos, desempregado e a viver sozinho num quarto, recebendo apenas 153 euros do Rendimento Social de Inserção, pôde quase duplicar o seu rendimento com os 146 euros da formação: “Agora já posso ter quarto e comida”, disse a Ricardo Pocinho.

Em todo o distrito de Coimbra, o líder local da UGT quer continuar a procurar outros caminhos de actuação para a organização – trajectos abertos pela actual situação do país. Neste âmbito, Ricardo lançou uma campanha para angariar os 1500 euros necessários à reparação da cadeira de rodas eléctrica de um jovem técnico de som que se viu impossibilitado de trabalhar; e vai também promover uma Caminhada Solidária Pelo Emprego, cuja receita será convertida em alimentos para famílias carenciadas.

Através destas iniciativas, Ricardo Pocinho tenta também desfazer a imagem redutora da central sindical como simples promotora de manifestações, parceira na concertação social e braço sindical do PS. “O que é que interessa às pessoas que estão agora a passar fome que eu, como presidente da UGT/Coimbra, esteja a falar num jornal ou televisão sobre o Orçamento do Estado?”

©osomeafuria“O que posso fazer? Olhe, choro também.”

É no lado invisível do trabalho dos sindicatos que a realidade se mostra cada vez mais dura. É quando Célia Lopes, 36 anos, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP), se reúne com trabalhadores nas empresas, ou quando passa longos minutos ao telefone, ou quando enfrenta olhos nos olhos o choro de quem já está desesperado, que a crise deixa de ser um número, uma percentagem, um decreto-lei, uma conferência de imprensa, uma convocatória para uma manifestação e passa a ter nome, idade, género e família. Passa a ser aquele homem que diz que vai entregar a casa, ou aquela mulher que admite que já não lhe sobra dinheiro para a alimentação, ou aquela outra que faz do sindicato o consultório de psicologia. É dentro das paredes do CESP, sindicato afecto à CGTP-Intersindical, que muitas vezes se contam as piores histórias.

“Há uns tempos passou-me pelas mãos um caso de uma senhora que já tínhamos acompanhado num problema laboral e que voltou a ter uma situação de conflito no trabalho. Pela primeira vez atendi-a fora da empresa e a meio da conversa apercebi-me que esta mulher era vítima de violência doméstica há mais de 20 anos. Perguntei-lhe porque nunca tinha contado o que se passava e ela respondeu que era por vergonha. Porque quem é vítima disto acha sempre que a culpa é sua. Não consigo compreender estas situações e tenho tentado então acompanhar esta mulher, mais do que como dirigente sindical, também como pessoa. Ela está desempregada, o filho está desempregado. Há um ano teve a coragem de denunciar o marido à polícia porque ele lhe pôs uma faca na garganta. Portanto, estamos a acompanhá-la não só na acção no Tribunal de Trabalho, mas também dando outro apoio mais pessoal, estando por exemplo sempre com ela quando ela tem de ir ao tribunal. É chocante”, conta Célia Lopes.

A crise e a austeridade assumem formas diversas e a sindicalista refere que há situações que tinham desaparecido do cenário laboral e que estão a regressar em força. “Voltámos a ter nos locais de trabalho casos de agressão entre colegas. Nos últimos dois meses apareceram-me pelos menos três. Agressões entre trabalhadores, entre chefias e não chefias, porque as pessoas estão no limite. Nem nós imaginamos em que situação estão muitos trabalhadores.” Porque nem só de desempregados tratam os sindicatos. A fome chega às casas de quem trabalha e recebe o ordenado todos os meses. “Batem aqui à porta pessoas que já estão a perder a casa, pessoas que assumem que têm dinheiro para a casa e a escola dos filhos mas a alimentação é paga por familiares, pessoas que apenas tomam uma refeição por dia, nos refeitórios das empresas”, explica.

Todos os dias, todas as semanas, todos os meses, os problemas chegam até Célia, que tenta pelo menos manter o trabalho longe de casa. Mas nem sempre é possível. “Às vezes lá sai um grito aos filhos por uma coisa mínima, outras vezes há mais silêncios do que palavras, porque é impossível esconder o que sentimos. Às vezes saio dos locais de trabalho sem vontade de ir a mais nenhum. Estou cansada… E depois penso, fogo, sou tão sortuda. E quando nós, sindicalistas, caímos neste dilema, temos de lutar contra ele. Nós temos de lutar para que os outros tenham aquilo que nós temos e não cair na conversa que o Governo quer que a gente caia e que é ‘ai que sorte ainda termos emprego, e podermos pagar uma casa e termos comida na mesa.´ Todos os dias a situação se agrava e tenho a sensação que todos os dias vêm coisas piores”, desabafa.

E o pior chega. Chega na voz de uma mulher que, sentada à frente de Célia, lhe diz que está a tomar uma medicação fortíssima porque caso contrário se torna violenta; chega por telefone o desespero de um homem de 50 anos que espera pela indemnização que não vai receber antes de Junho de 2014 e já não tem dinheiro para a prestação da casa; chega através de uma delegada sindical que conta que a empresa decidiu pagar metade do salário aos trabalhadores sem aviso de qualquer ordem.

Há dias em que Célia tenta o discurso optimista, embora saiba que o que diz não irá acontecer nunca. Outras vezes não dá. “Já me aconteceu desatar a chorar à frente das pessoas. Não sou de ferro. O que posso fazer? Olhe, choro também.”