Não se admitem ao serviço pessoas com mais de 45 anos

São quase um milhão os portugueses entre os 45 e os 64 anos que estão inactivos. Representam a maior fatia dos desempregados e deparam-se com o maior dos dilemas: demasiado novos para a reforma, demasiado velhos para um mercado de trabalho que não quer saber deles.

Rita Ferreira

Abril 2014

José Évora: preconceito a dobrar

Já tinha 40 anos quando chegou à Madeira, depois de ter trabalhado durante cinco anos como administrativo numa associação cultural em Coimbra. A partir daí, nunca mais arranjou trabalho fixo duradouro. A idade já começava a ter influência no tipo de emprego a que se podia candidatar, o facto de ter origem africana também não ajudou. “São mais os que colocam limite de idade e normalmente pedem pessoas até aos 35 anos. Quem tiver 35 ainda tem sorte, a partir daí está tramado”, conta José Évora, que nunca desiste de se candidatar a trabalhos, de enviar currículos, mesmo que raramente tenha uma resposta. Ainda que negativa.

José tem o 12º ano e a sua experiência laboral é essencialmente de funcionário administrativo. E era essa função que ia desempenhar quando ingressou numa empresa de ar condicionado. “Comecei como escriturário, mas acabei na rua a limpar filtros de ar condicionado”, conta. Passou de funcionário de escritório a motorista e terminou a abrir valas para passar cabos de ar condicionado. Durou dois anos este trabalho.

Ficou a receber o subsídio de desemprego até que foi colocado como como motorista num hospital no Funchal, mas o contrato durou apenas nove meses. De novo desempregado, foi contratado para uma clínica. “Estava no atendimento, até que decidiram que eu não servia para a função. Não queriam uma pessoa com a minha idade nem com a minha cor de pele, acho que a minha saída seis meses depois teve mesmo a ver com isso. Puseram lá uma rapariga nova e bonita no meu lugar.”

Voltou então ao subsídio de desemprego. José Évora tem 46 anos, duas filhas menores, a mulher trabalha e é a maior fonte de rendimento do agregado familiar. Há poucos meses foi contactado pelo centro de emprego para integrar um programa ocupacional. “Isto é mais uma forma de enganar os desempregados. Ganhamos trezentos e tal euros durante nove meses, trabalhamos seis horas por dia. Felizmente no meu caso há flexibilidade de horário e muito do trabalho posso fazer em casa, utilizo o computador e a Internet. Assim pelo menos posso tomar conta das minhas bebés.”

©osomeafuriaCristina Pinto: a maternidade ou o emprego

Se já é difícil arranjar trabalho quando se está em permanente actividade, mais complicado se torna quando se faz uma pausa na carreira. Foi o que aconteceu a Cristina Pinto, hoje com 53 anos e desempregada. Quando casou era secretária de administração numa empresa. Veio o primeiro filho e Cristina, juntamente com o marido que trabalhava numa multinacional, decidiu fazer uma pausa e investir no bebé, ficando em casa com a criança. Entretanto chegou um segundo bebé e Cristina prolongou a sua ausência do mercado laboral. Nada de estranho para muitas mulheres noutros países ocidentais, mas que veio a revelar-se muito complicado quando, aos 36 anos, Cristina tentou regressar ao trabalho.

“Até fazer 40 anos fui sempre procurando trabalho na área administrativa, mas não estava a conseguir. Nunca parei, contudo. Fazia muitos trabalhos de tradução e investi na minha formação, tirando um curso de decoração e arquitectura de interiores. Acabei o curso com uma média alta, comecei a mandar currículos, mas nunca ninguém me respondeu. É um meio muito fechado. As traduções começaram a escassear até que desapareceram por completo”, explica.

Já nesta altura Cristina sentia que havia discriminação por causa da idade que tinha. E se aos 40 já era difícil… “Aos 53 nem pensar, estamos velhos. Dizem que estão interessados num escalão mais baixo, num escalão mais novo, que procuram pessoas com menos habilitações. Enfim, há sempre uma maneira airosa de dizer: estás velha, não dás.”

Os filhos ainda estão a seu cargo. Ela tem 20 anos, ele tem 17. “Não me arrependo nada da decisão que tomei. Investi muito neles, puderam ser acompanhados, dei-lhes as bases.” O rendimento disponível para a família é agora menor, mas Cristina nunca escondeu dos filhos que ora havia dinheiro disponível, ora não. Continua a trabalhar – pinta quadros – e por vezes consegue montar uma exposição, “à custa de muito lutar”. Na última vendeu duas telas.

Com a filha mais velha a terminar o curso de Biologia Molecular, Cristina diz que, por vezes, sente-se perdida quando ela lhe pede conselhos. “Não sei qual é o sentido disto tudo. Há um desinteresse pelo próprio e pelo próximo, tudo serve de desculpa. Por vezes parece que caí aqui de páraquedas e não sei o que me está a rodear. Ou existe o ‘senhor cunha’ ou não há hipótese de trabalho. Já digo aos meus filhos: preparem-se para sair daqui.”

João Silva: uma questão de confiança

Uma licenciatura em Economia, um cargo de direcção na empresa onde trabalhou 28 anos. João Silva começou a trabalhar como técnico aos 24 anos na empresa que agora não quer revelar o nome. “Era um rookie, mas fui subindo. A minha carreira foi sempre em progressão, nunca fiquei congelado, nunca fui emprateleirado. Aos 47 anos cheguei a director financeiro”, conta.

Tudo corria sobre rodas até ao dia em que a estrutura accionista mudou e a empresa, que era de capital disperso, passou a ser controlada por um único accionista que ficou com 98% do capital. “Era uma empresa familiar, e como se sabe, nas empresas familiares, os cargos de maior confiança ficam na família. Os milhões são colocados nas mãos dos filhos ou dos sobrinhos”, revela, para explicar que o convite para sair do cargo que ocupava acabou por não ser uma surpresa. Mas um corte abrupto não estava nos horizontes de João, que sempre pensou que a experiência que trazia de 28 anos dentro da empresa “fosse um argumento que servisse para defender o posto de trabalho por mais algum tempo”. Enganou-se. O processo de despedimento iniciou-se, terminando numa “rescisão por mútuo acordo”.

“Uma coisa é a pessoa sair pelo seu pé, outra coisa é ser chutada para fora. A mudança é abrupta e a ideia de que pelo menos se vai desfrutar de algum tempo livre é errada. E a verdade é que quem sai não tem voz activa nenhuma nestes processos. Não se resolve o problema das entranhas e o problema das entranhas é um bocado complicado.” Mal ficou desempregado, João começou à procura de outro trabalho. Apesar de receber o máximo do subsídio de desemprego, o valor é muito inferior ao que recebia mensalmente no seu ordenado e a indemnização que trouxe não lhe “forrou a carteira com milhões”. E então? “Então, zero. Não consegui nada. Para começar não há criação de postos de trabalho. Depois, ao nível que eu estava, as pessoas que arranjam colocação não chegam lá através do mercado formal. As únicas coisas que vi foram escassíssimas oportunidades em Portugal, alguma coisa para Angola e mais nada.”

E o que já acontece em muitos outros países da Europa, onde pessoas como João são contratadas para projectos com contratos a termo de um ou dois anos por empresas que só têm a ganhar com o capital de anos de experiência na área, não existe em Portugal.

João não tem outra solução senão tentar criar o seu próprio emprego e é nisso que vai apostar. Aos 54 anos, longe ainda da idade de reforma, com a mulher desempregada e dois filhos ainda a seu cargo – um recém-licenciado, outro acabado de entrar na faculdade –, precisa de rendimento. “Para já, apesar de ter havido muitas alterações na nossa vida, não perdemos nada de fundamental. Vivemos na mesma casa, almoçamos e jantamos todos os dias, talvez não as mesmas coisas, mas o essencial está preservado.”

Até ao início de 2016, João Silva tem garantido o subsídio de desemprego. Depois disso não sabe o que vai acontecer. “Dava-me jeito ter uma bola de cristal. Se soubesse quando vou morrer podia fazer melhor as contas.”