Na praia jurássica ainda há ondas do mar

É uma descoberta única em Portugal e rara em toda a Europa. Cerca de sessenta fósseis – entre estrelas do mar, ouriços e lírios marinhos – foram encontrados numa antiga pedreira nas Serras de Aire e Candeeiros. Ali havia mar há 170 milhões de anos. Mas os fósseis mais bonitos já não estão lá.

Rita Ferreira

Fevereiro 2014

“A praia seca? Aquilo não tem água!” O aviso para os mais distraídos ou ingénuos fica dado, não vá alguém pensar que no meio das Serras de Aire e Candeeiros brota um mar de águas límpidas rodeado de areia branca. Não será o caso das dezenas de visitantes que, de há dois meses para cá, têm ido em busca da antiga pedreira onde foram descobertos inúmeros fósseis que comprovam a existência de um ambiente marinho naquela região. E é preciso persistência para lá chegar. Ou ir com alguém que já saiba o caminho.

As primeiras indicações foram obtidas no Mini-mercado e Café Ilídio, na freguesia de São Bento. Passa a vacaria, a estrada desce, quando fizer uma curva maior vire à direita. E depois? Depois pergunta-se outra vez. “Está a ver aquele monte ali? Segue esta estrada e depois passa para a estrada branca, vai ver umas oliveiras e então não segue pela direita, vai pela esquerda.” Mas continua tudo igual e há oliveiras por todo o lado. “Chega ali acima ao pé de uns eucaliptos e é sempre a descer, parece que o carro não consegue ir lá, mas vai e depois tem de voltar para trás, porque de lá não passa”, avisa uma outra senhora que está a arranjar o jardim de casa. Foram voltas e voltas sem nunca avistar praia jurássica que fosse. Não há uma placa, uma indicação mais perceptível para quem não está habituado à paisagem que parece toda igual e a verdade é que a pedreira da Ladeira, onde foram descobertos os fósseis, não se avista ao longe, só mesmo quando se chega ao local nos apercebemos da sua existência.

Desta vez, valeu a boa vontade de Jorge Pascoal, funcionário da junta, homem de simpatia e dono de um tractor que, por entre estradas castanhas, brancas, muros empedrados e oliveiras, nos conduziu em direcção à pedreira com a destreza de quem poderia fazer aquele caminho de olhos fechados.

Chegámos. O carro estaciona-se mal a estrada termina, por cima de pedra partida. É por cima de pedra partida que continuamos a andar até descer à praia propriamente dita, feita de enormes lages limpas, pontuadas aqui e ali por pedras de tamanhos diferentes. Jorge Pascoal acaba por fazer a “visita guiada” à praia jurássica de Porto de Mós. Não é arqueólogo, nem geólogo, nem paleontólogo. Mas sabe de cor onde estão os fósseis encontrados há já alguns anos, quando a pedreira ainda estava activa. “As pedras marcam os locais dos fósseis”, explica, enquanto se dirige até uma delas. Move a pedra de sítio e mostra: “Aqui está uma estrela do mar.” Há ouriços, há lírios e há outras marcas reveladoras do ambiente que ali existia há 170 milhões de anos. “Isto aqui dizem que são as ondas do mar”, revela, indicando uma zona que de facto faz lembrar as ondinhas na areia do fundo do mar. Jorge sabe isto tudo porque aqui andou nos trabalhos de limpeza como funcionário da junta de freguesia de São Bento e foi ouvindo as explicações dos especialistas. Ripple marks, assim são designadas as ondas do mar fossilizadas.

Jorge anda agora de um lado para o outro a levantar pedra atrás de pedra, em busca de um fóssil específico. “Era o maior e mais bonito, um ouriço do mar, mas não o consigo encontrar.” Não é porque se tenha esquecido do local onde ele estava. É porque já alguém o levou dali.

©osomeafuriaA guerra dos fósseis

São sessenta os fósseis encontrados naqueles dois mil metros quadrados antes ocupados por uma exploração de pedra. Segundo António José Menezes, geólogo e deputado municipal eleito pelo PS na Câmara Municipal de Porto de Mós, esta descoberta mostra que ali existia “uma planura litoral, pejada de zonas inundadas por lençóis de água, com um a dois metros de espessura”. Daí terem ficado a descoberto na pedreira da Ladeira os fósseis de “inúmeras espécies de estrelas do mar, crustáceos, peixes, ouriços do mar, lírios do mar, sulcos feitos por animais marinhos e as próprias ondas do mar fossilizadas”. Quando tornou pública a existência deste local, na sessão da Assembleia Municipal de 29 de Novembro de 2013, António José Menezes explicou que esta jazida prova que ali existia “um mar jurássico, tropical a subtropical” em cujas margens “passeavam dinossauros, como aqueles que têm sido encontrados no concelho de Porto de Mós”.

O geólogo propôs então nessa assembleia que aquele local fosse classificado como geo-monumento. E assim foi. A autarquia acolheu a proposta por unanimidade. “Como já existe um projecto de geoparque para a região, uma jazida daquelas poderia ser o motor de arranque para algo mais ambicioso”, explica. Mas António tinha outra motivação. A de travar a intenção do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) de levar por diante a retirada de alguns fósseis da praia jurássica. Não conseguiu fazê-lo. “Retiraram os fósseis sem ninguém saber, não informaram o dia nem a hora. E levaram os que causam mais impacto, destruindo a visão de conjunto que permitiria a reconstituição do paleo-ambiente. Foi à bruta”, acusa.

“Há dois anos que ando a insistir, junto do Parque Natural e do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, na retirada dos fósseis mais significativos daquela zona”, explica Miguel Ramalho, geólogo e director do Museu Geológico em Lisboa. Para este antigo professor universitário, a explicação é simples e a recolha dos fósseis faz todo o sentido: “Não há possibilidade de proteger a jazida, nem das pessoas, nem mesmo da passagem de veículos pela zona, o que chegou a acontecer. Há ainda a erosão. Os fósseis são muito frágeis e de fácil desagregação e em meia dúzia de anos desaparecem. Até as pegadas de dinossauros da pedreira do Galinha já não são o que eram e nem se comparam em tamanho com estes fósseis.”

António José Menezes e Miguel Ramalho concordam num aspecto: a importância dos fósseis ali descobertos é enorme. “São notáveis pelo seu estado de conservação. É algo raro. Em Portugal não existe outro exemplo e na Europa só me lembro de mais um caso de fósseis tão bem conservados”, diz o director do Museu Geológico. Para logo a seguir justificar por que razão foram retirados os exemplares de maior interesse científico e levados para o museu para serem estudados, datados e posteriormente expostos. “Ou se retiram e vêm para este museu e o seu valor é preservado e publicado, ou então deixamos ao cuidado da autarquia que não tem possibilidade de protegê-los. Estão espalhados por uma distância bastante grande, tinha de estar ali um guarda 24 horas, tinham de ser protegidos da chuva…”, argumenta.

Opinião diferente têm os representantes municipais. O presidente da junta de freguesia de São Bento não se conforma com o sucedido. “O Parque Natural faz tudo nas costas das pessoas. Andámos lá nas limpezas da pedreira, juntamente com os bombeiros, e depois nem nos chamaram quando foram retirar os fósseis. E tiraram os mais bonitos, nem deixaram réplicas nem nada”, queixa-se Luís Cordeiro, que gostaria de ver aquele local ser aproveitado para dinamizar a região, uma vez que, desde que a praia jurássica foi divulgada, têm existido autênticas romarias de curiosos, que ao fim-de-semana querem ir ver os fósseis.

A mesma posição é assumida pela câmara de Porto de Mós, que deu um parecer negativo à recolha dos fósseis. O vereador das Obras Públicas, Serviços Municipais e Ambiente, Rui Marto, diz que foi alertado “por alguém que nem pertence à câmara municipal de que havia ali um trabalho de limpeza e depois foi a junta de freguesia” que lhe falou na retirada dos fósseis. Rui Marto diz que transmitiu ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) que a autarquia se opunha a esta decisão, propondo um trabalho conjunto para que fosse encontrada uma solução que agradasse todos. E é isso que estão a tentar fazer agora, depois de realizarem uma reunião com os dois deputados do PS eleitos por Leiria, João Paulo Pedrosa e Odete João, que foram visitar a pedreira e que rapidamente redigiram uma nota de imprensa dando conta da “falta de diálogo e cooperação por parte do ICNF e LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia) a ponto de terem sido retirados alguns fósseis do seu contexto ‘in situ’, destruindo assim o ambiente natural daqueles achados e impossibilitando o estudo e o enquadramento local e paisagístico daqueles achados arqueológicos.” Daí que pretendam apresentar um projecto de resolução no Parlamento para que as entidades estatais, em conjunto com a autarquia, resolvam este problema.

Para Miguel Ramalho, que sublinha que “nada de anormal se passou”, o desfecho desta história passa por fornecer à autarquia réplicas dos fósseis, coisa que, aliás, estaria desde o início garantida. Para já, os originais estão no Museu Geológico, em Lisboa, a ser estudados por um geólogo que está a trabalhar com a Universidade de Bristol e a cargo de quem ficará a classificação dos achados. “Estamos todos de boa fé nisto. Não podemos é aceitar que os interesses locais ponham em causa um património daqueles, que, segundo as leis internacionais, deve estar guardado num museu científico reconhecido”, argumenta o responsávelFoi enviado um email com perguntas para o ICNF, que tutela o PNSAC. Durante uma semana aguardámos as respostas que continuam por chegar.

No Mini-mercado e Café Ilídio, Arminda encolhe os ombros quando se fala da praia jurássica: “Não fui lá nem perco a passada para lá ir.” Os clientes a mais que ali entram a caminho do local pouco gastam – “já vêm aviados” – e a grande diferença nota-se na venda dos jornais, que aumentou nos dias em que a praia de São Bento foi notícia. A vida continua pacata por ali, anda devagar, ao ritmo do jogo da bisca que se joga após o almoço.

Joaquim já bebeu café mas decidiu ficar por ali à conversa. É pastor, costumava passar com o gado pela pedreira da Ladeira. Agora passa ao largo, e tem visto a quantidade de carros que por lá páram aos fins-de-semana. É bonita, a praia? Joaquim mostra-se indiferente: “Há disso aos pontapés aí por todo o lado.” Mas se é para dizer mal do Parque Natural, Joaquim chega-se logo à frente. “Se o Parque lá foi já fez mal”, resmunga. Não gosta que a terra não possa ser trabalhada como antigamente, não percebe porque há tantos limites à construção. “Olhe aqui” – diz, apontando para uma ladeira verde –, “então não ficavam bem uns prédios todos direitinhos por aqui abaixo?” Manuel Silva está a jogar bisca com um amigo e vai levantando os olhos para ver o que se está a passar. Quando finalmente decide falar diz apenas duas frases. “Já fui ver a praia jurássica muita vez e gosto muito de lá ir passear. Aquilo é muito bonito e devia ser preservado e aproveitado.” Bisca.

Acaba a hora de almoço e os clientes do café Idílio saem um a um, de regresso aos seus ofícios. Está sol e por isso é um bom dia para visitar a pedreira e tentar descobrir as dezenas de fósseis que não foram retirados e que se vêem sem dificuldade. Há estrelas do mar, há ouriços tão bem cravados na pedra que se conseguem contar os espinhos um a um, há lírios do mar que parece que ainda se mexem ao sabor da corrente. Por todo o lado se vê serra e não é fácil imaginar como seria aquele lugar de águas calmas e pouco profundas que por ali corriam há 170 milhões de anos.

Para lá chegar: quem vem de Porto de Mós em direcção a São Bento vira à esquerda na placa que indica Covões Largos. Chegado à pequena povoação segue sempre pela estrada principal. Depois de uma curva apertada à direita, há uma subida e a estrada passa a ser de terra batida e brita. Continue por essa estrada. Vai passar por um conjunto de oliveiras. A estrada volta a descer. Quando vir do lado esquerdo um monte e um conjunto de árvores muito altas vire em direcção a elas no cruzamento onde está um sinal que diz “proibido caçar tordos”. Continue sempre junto ao muro, pelo seu lado direito, em direcção a uma árvore solitária muito alta. É ali a praia seca.