Marta fez limpezas e pagaram-lhe com comida

Já são 29 as pessoas que trabalham em troca de comida em Paço de Sousa, ao abrigo de um programa da junta de freguesia. São desempregados e reformados que estão a ficar sem opções, entalados entre o tédio e a miséria iminente. Há quem fale de “aproveitamento oportunista do desemprego”.

João de Almeida Dias

Janeiro 2014

O restolhar de sacos de plástico cheios a serem pousados no chão da sua cozinha é um som tão raro que não é de admirar que Marta Gomes sorria quando o ouve. Como uma criança obcecada pela sua prenda de Natal preferida, esta mulher de 37 anos e mãe de dois filhos não resiste a olhar para dentro de cada um dos quatro sacos só mais uma vez. “Pode olhar lá para dentro, também! Não tenho vergonha nenhuma, se essas coisas estão aí foi porque eu trabalhei por elas!”, diz. Fala de um quilo de batatas dentro de uma rede vermelha, uma caixa de cereais de chocolate, meio quilo de cebolas, papel higiénico, guardanapos e duas latas de salsichas. O orgulho tem destas coisas: Marta ri alto e aos solavancos mesmo quando já tirou os olhos dos sacos para se concentrar na frigideira onde cozinha uns rissóis de carne congelados para o almoço do filho, que não tarda a chegar a casa. O ar quente da frigideira sobe, mistura-se com a humidade da cozinha e forma uma nuvem de vapor entre ela e o fogão. “Há dias bons e dias maus”, diz, sem sentir necessidade de explicar que aquele fora um dos melhores dias que tivera nos últimos anos.

Marta, natural de Cête, não estudou além da 4ª classe, porque mais não era preciso para arranjar trabalho no triângulo da pequena agricultura, das limpezas ou da indústria. Foi neste último vértice que foi parar, aos 13 anos. Esteve numa fábrica têxtil até que engravidou aos 16 anos de um homem com quase o dobro da sua idade. Aos 17 anos casou e nunca mais voltou a trabalhar. Mais tarde voltou a engravidar. Tratava dos filhos e do lar e ele em troca batia-lhe. Marta calou-se, deixou de sair de casa, houve alturas em que nem queria sair da cama. Chegou a pensar que não fazia falta a ninguém e por duas vezes quis morrer. Foi só quando o filho mais velho fez frente ao próprio pai que Marta, de tão reprimida que fora toda a vida, tomou uma rajada de decisões: divorciar-se, denunciar  o marido à polícia,  sair de casa com os filhos e arranjar um emprego. O ex-marido acabou por ser condenado a três anos de pena suspensa por violência doméstica. E Marta vive hoje com os dois filhos – Filipa, uma rapariga de 14 anos que oscila entre a timidez e a rebeldia, e Luís, 20 anos, ajudante de mecânico, que sustenta a família com um ordenado de 550 euros mensais. De todas as decisões que tomou, Marta apenas não conseguiu concretizar uma: voltar a trabalhar.

“Aqui não há trabalho, não há mesmo… E eu já me ofereci para fazer de tudo, mas a crise é muita”, lamenta. Nem as recentes melhorias no currículo – fez um curso de equivalência do 9º ano, outro para formação de técnicos comerciais e estudou inglês – lhe servem de algo. Por isso, quando descobriu no Facebook que a Junta de Freguesia de Paço de Sousa, em Penafiel, tinha criado um programa chamado “Banco do Tempo” em que se oferecia comida em troca de trabalhos pontuais, Marta saiu de casa, em Cête, e fez a pé o caminho de 30 minutos até à freguesia vizinha.

Quando chegou ao edifício branco e moderno da junta de Paço de Sousa, destoante com a paisagem verde em volta, foi recebida pela psicóloga Daniela Gonçalves, uma das responsáveis pelo “Banco do Tempo”. Contou-lhe a sua história com a mesma crueza das feridas que teimam em não cicatrizar. Disse-lhe que precisava de trabalhar para comer. “Eu por mim faço qualquer coisa.” Daniela explicou-lhe as regras do programa: não poderia trabalhar mais do que quatro horas diárias; seria paga em géneros e nunca em dinheiro; cada hora de trabalho equivaleria a um crédito no valor de três euros.

“Se não posso comer papas, então como caldo”

©osomeafuriaNão demorou uma semana até Marta ser chamada, juntamente com mais seis pessoas, para limpar uma vivenda dois dias antes do Natal. A proprietária, uma mulher abastada do Porto que até então tinha deixado a casa ao abandono, decidiu que iria fazer lá a sua festa de passagem do ano. “Aquilo estava uma desgraça, via-se mesmo que não entrava lá ninguém há muito tempo”, diz Rosa Vieira, de 71 anos, residente em Paço de Sousa, e que também ajudou naquelas limpezas. Lavaram o chão, as paredes, o tecto e as janelas, mandaram fora lixo e todo o tipo de entulho acumulado na casa. Rosa trabalhou três horas num dia e Marta, que foi lá por duas ocasiões, completou sete. Teve direito a géneros no valor de 21 euros.

Tal como Marta, também Rosa recorreu ao “Banco do Tempo” para colmatar algumas necessidades. Apesar de ter trabalhado desde os nove anos, não recebe qualquer reforma por nunca ter feito descontos. A reforma do marido, 650 euros, é o único rendimento da família. Com Rosa e o marido vive um filho, desempregado, e o casal ajuda ainda um outro. “Costuma-se dizer que ‘se não posso comer papas, então como caldo’. Mas o dinheiro já está a chegar àquela altura em que não estica mais.”

Arlindo Sousa, presidente da Junta de Freguesia de Paço de Sousa, já tinha a ideia de começar o “Banco do Tempo” há alguns anos, mas só quando foi eleito em Setembro de 2013, nas listas do Partido Socialista, é que levou a ideia para a frente. “Eu confesso que não sabia que havia tantas pessoas em Paço de Sousa carenciadas a este ponto”, admite o autarca. A freguesia, com cerca de 5 mil habitantes e a 15 minutos de distância de Penafiel, atravessa uma fase pouco favorável. A indústria daquela terra nunca foi além de “uma ou duas fabriquetas”, tal como os serviços, que não oferecem emprego. A população jovem foge para as cidades maiores e para o estrangeiro e os mais velhos, que vivem de reformas magras, muitos por terem trabalhado na pequena agricultura, caem facilmente no abandono e no tédio. Cada vez recorrem mais às próprias hortas, pequenas e de cultivos que não vão além de batatas e cebolas, para se alimentarem.

Em pouco mais de um mês, 29 pessoas abordaram a junta para pedirem trabalho em troca de comida. Fazem limpezas a empresas ou particulares, ajudam idosos, trabalham na agricultura, podam sebes ou acompanham pessoas em deslocações ao hospital. São reformados e desempregados, e sobretudo mulheres.

Iguais a Jesus?

Os alimentos são doados por quem usufrui dos serviços ou por “beneméritos”, isto é, privados ou empresas. Alice Cruz, proprietária do restaurante O Moinho do Moleiro, faz parte destes últimos e não poupa elogios ao projecto. “Para mim, isto foi das melhores coisas que aconteceram aqui no Norte nos últimos tempos.” A empresária diz que neste momento não tem necessidade de contratar mais pessoas para o seu restaurante, mas quando chegar o Verão, altura em que a clientela costuma abundar, talvez chame algumas pessoas do “Banco do Tempo” “para ajudarem na cozinha”.

Ainda assim, o projecto não foi recebido de braços abertos por toda a gente em Paço de Sousa. As maiores críticas foram assinadas pela concelhia de Penafiel do Partido Comunista Português, que, num comunicado, descreveu o “Banco do Tempo” como um “aproveitamento oportunista do flagelo social do desemprego e das situações de carência das famílias” e considerou “inadmissível que seja o próprio Estado, através da Junta de Freguesia de Paço de Sousa, a implementar um regime de trabalho em troca de comida”.

Arlindo Sousa reagiu às críticas que lhe têm chegado aos ouvidos falando de Jesus. “Então diga-me lá uma coisa: Cristo foi morto porquê? Por fazer bem! Só que se calhar esse bem não interessava a quem o matou. E nós aqui estamos num problema parecido: fazemos o bem e mesmo assim levamos na cabeça.” Mais sério, torna a responder às acusações: “Nós temos o cuidado de os trabalhos serem pontuais e nunca repetidos, se não estaríamos a patrocinar uma espécie de concorrência desleal às empresas locais.”

Alérgico à “caridadezinha”, o presidente diz que, se alguma vez estivesse na situação de pobreza de algumas das pessoas que chegam à junta a pedir ajuda, “preferia morrer à fome do que estender a mão aos outros”. É bastante crítico das campanhas do Banco Alimentar, “porque quem ganha realmente com aquilo são as grandes superfícies e os Belmiros de Azevedo deste país, que chamam as televisões todas para irem lá fazer reclame à casa e acabam o dia com os bolsos cheios”. O que acontece em Paço de Sousa, garante, é diferente: “As pessoas que trabalham no ‘Banco do Tempo saem daqui valorizadas, sentem-se úteis e acabaram de fazer um trabalho que faz falta. Isto é uma forma de chegar a outrem sem o humilhar. E quando saem daqui com os sacos cheios as pessoas finalmente pensam ‘estou a comer o fruto do meu suor e não do suor dos outros’”.

Beber para esquecer

Uma das questões fulcrais deste programa é que o pagamento do trabalho é sempre feito em géneros e não em dinheiro. A resposta para esta regra inviolável surge da boca daqueles que dão a cara pelo projecto de forma frontal. “Aqui há muitas pessoas que bebem, e quando recebem as reformas, que são simbólicas por terem trabalhado sempre à negra, bebem para esquecer. E eu aí pergunto, afinal, o que é que eles querem esquecer? Se calhar para esquecerem que não têm dignidade!”, explica Arlindo Sousa. António Ribeiro, voluntário do grupo de acção social da junta, completa: “Nós não podemos continuar a ter pessoas que vão deixar os filhos às escola e que depois se vão enfiar num café o dia todo.” Dizem, os dois, que é uma “questão de dignidade”.

É também de dignidade que Marta fala, ainda a rir, quando coloca os rissóis do filho num prato tapado por uma folha de papel de cozinha. “Nós podemos ser pobres mas não é por isso que temos de ser desarrumados nem sujos, não é?”, lança. “Mas também digo uma coisa… As pessoas passam umas pelas outras na rua e não fazem ideia dos problemas que cada um tem. Às vezes são mesmo más umas para as outras, mas se falassem connosco percebiam como é a nossa a vida.” À medida que vai falando, Marta parece rir menos. “Sabe, eu até fico doente quando as coisas correm bem, a gente até fica com medo do que pode vir a seguir. Há com cada azar…”.

Entretanto Luís, o filho de Marta, chega a casa e senta-se para almoçar. A mãe arranja-lhe um prato com três rissóis e acompanha-os de um arroz branco com ervilhas. Luís senta-se e começa a comer. Quando parte uma carcaça em dois com as mãos ainda sujas da oficina, Marta, de novo sorridente, chama-lhe a atenção para os sacos de plástico arrumados num canto da cozinha. “Já viste o que a mãe trouxe hoje, Luís?”.