Manuela e Ludgero, fora do mundo

Em Outubro de 2013 a polícia encontrou os corpos de Manuela e Ludgero Matias. Estavam deitados na cama, mortos há 18 dias. O suicídio veio depois de anos de isolamento. Parecia uma história simples.

Maria José Oliveira

Janeiro 2014

Manuela e Ludgero olham sorridentes um para o outro. Ele de fato e gravata; ela de vestido. A fotografia já tem alguns anos e está num cavalete junto aos dois caixões fechados, durante a missa no cemitério de Camarate. Os poucos vizinhos que compareceram no funeral mal conseguem reconhecer naquela imagem e naqueles sorrisos a Manuela e o Ludgero do 4º C.

Maria Manuela Matias e Ludgero Henriques Pinto Matias habitavam há poucos anos a torre de 15 pisos e 90 casas que sobressai, pela sua altura, no aglomerado caótico de prédios em Santo António dos Cavaleiros. Naquele edifício, na Praça António Nobre, conheciam poucos vizinhos, mas depois da tragédia todos ficaram a saber-lhes os nomes.

A 2 de Outubro do ano passado, a PSP foi chamada por Elizabete Vieira, do 6º B. Algo estranho acontecera no 4º C. Há alguns dias que os habitantes dos pisos 4, 5, 6 e 7 se queixavam de um forte odor nos corredores. O cheiro não cessava. Conceição Félix, a senhora que faz limpezas no prédio há 19 anos, todos os dias da semana, das 11h00 às 18h00, concluiu que o odor não poderia ser oriundo do lixo de algum morador mais incauto. Juntamente com Elizabete, pôs em prática uma ideia da vizinha do 4º F: prendeu uma trela de cão ao gancho de um espelho de tamanho médio e fê-lo descer até à janela do quarto de Manuela e Ludgero, que estava aberta há mais de duas semanas, já com o cortinado, de um cor de laranja desmaiado, do lado de fora. Quando o espelho pousou no parapeito, Conceição e Elizabete nada viram do interior do quarto (estavam duas janelas acima), mas repararam nas moscas que saíram para o exterior e no intenso odor a “carne podre” que subiu até elas.

Os dois agentes da PSP que acorreram ao 4º piso não tiveram dúvidas sobre o que iriam encontrar no apartamento de Manuela e Ludgero. O mesmo aconteceu com a equipa dos Bombeiros Voluntários de Loures, que, ainda antes de abrir a porta da residência, colocou máscaras e luvas – mesmo sabendo que aquele cheiro fica impregnado nas fardas durante longas horas. Conceição, Elizabete e poucas vizinhas aguardavam o resultado da intervenção dos bombeiros. Era quarta-feira e, àquela hora, a meio da tarde, estava pouca gente no prédio. No interior da casa, com dois quartos, sala, cozinha e uma pequena marquise, tudo estava intacto e limpo. Na sala encontrava-se uma mala de viagem, fechada; sobre a mesa da cozinha, um papel com notas sobre horários e doses de medicação, ao lado de alguns comprimidos de diferentes cores, cuidadosamente colocados sobre uma folha de papel absorvente. Quando os bombeiros entraram no quarto do casal e viram Manuela e Ludgero deitados sobre a cama, não avançaram mais e procederam de acordo com as normas: restava-lhes preservar o local de quaisquer contaminações até à chegada dos elementos da Polícia Científica da Polícia Judiciária, que, após a recolha de dados, poderia então ordenar o transporte dos corpos para o Instituto de Medicina Legal de Lisboa, onde seriam autopsiados.

Sobre a cama, destapados, Manuela e Ludgero estavam irreconhecíveis, os corpos inchados, negros, cobertos de larvas. Estariam ali há mais de duas semanas, talvez desde 14 de Setembro, um Sábado, dia em que Manuela pediu a um casal amigo, Paulo Melo e Sandra Cruz, que ficasse com o seu cão, Dusty, até à quarta-feira seguinte, pois iria passar uns dias a casa de um irmão. Manuela, deitada de costas, vestia um pijama cor de laranja; Ludgero, deitado sobre o seu lado esquerdo, de costas para a mulher, cabeça enfiada na almofada, usava uma t-shirt branca e ceroulas da mesma cor. Sobre as duas mesinhas-de-cabeceira estavam maços de cigarros slim, isqueiros, dois cinzeiros com beatas. Na mesa junto a Ludgero estava ainda um telemóvel que terá tocado ao longo daquelas semanas, por insistência de Paulo Melo, até ficar sem bateria.

Ao princípio da noite, os cadáveres de Manuela e Ludgero foram retirados do prédio, envoltos em sacos de plástico pretos. Os resultados das autópsias não foram ainda entregues aos seus familiares, mas as autoridades policiais e os bombeiros disseram tratar-se de suicídio causado por uma ingestão de comprimidos.

Não houve velório. Mal os corpos foram devolvidos às famílias, procedeu-se ao funeral. Os familiares de Manuela e Ludgero cumpriram aquilo que o casal lhes tinha pedido há algum tempo: foram cremados e as suas cinzas atiradas ao mar.

Atenção mediática e especulações

O suicídio de Manuela e Ludgero fez parangonas na imprensa escrita e ocupou largos minutos nos programas de daytime dos canais generalistas. As televisões acorreram à Praça António Nobre para filmar o prédio e entrevistar vizinhos, mesmo aqueles que apenas trocavam cumprimentos com o casal. Invariavelmente, após a transmissão das reportagens, os comentadores residentes desses programas falavam na “solidão” provocada pelo “abandono familiar”. A imprensa foi um pouco mais longe. Escreveu-se que fizeram um “pacto de morte” e que “foram encontrados na cama do casal, virados um para o outro, num último abraço” (Correio da Manhã); tinham “problemas de dinheiro e sentiam-se sós” (Jornal de Notícias); a filha de Manuela “trancou-se no carro, enorme nos seus remorsos e culpa” (Jornal i). Nem a idade de ambos mereceu consenso: Manuela tinha 53 e Ludgero 60, segundo o Jornal de Notícias; no i, ela tinha mais de 60 e ele já estava nos 70. Na verdade, ele tinha 60 e ela 59.

Aparentemente, o suicídio de Manuela e Ludgero continha todos os ingredientes, digamos assim, para compor a tese que foi profusamente explorada na comunicação social: moravam sozinhos, sem que, entre vizinhos, alguém conhecesse sequer um familiar (logo, foram abandonados pela família, concluíram residentes, jornalistas e comentadores); escolheram viver num prédio com mais de 200 habitantes, num subúrbio-dormitório de Lisboa, caindo assim num isolamento produzido pelas frágeis (ou mesmo raras) ligações entre moradores; Ludgero teria uma “doença terminal”, um “cancro nos intestinos”, segundo Lucília, a vizinha do rés-do-chão que, durante um breve período, chegou a frequentar a casa do casal; as filhas de ambos, fruto de casamentos anteriores, ter-se-iam afastado e rompido elos; Manuela sofria, há vários anos, de depressão e dizia “que queria morrer”, contou “uma vizinha” ao Correio da Manhã.

O fim é quase sempre notícia, sobretudo quando arrasta algum dramatismo. E o dramatismo costuma apagar quase tudo o que veio antes. Quem eram Manuela e Ludgero?

Futebol e rock

Em 1971, com apenas 19 anos, Ludgero casou-se com uma rapariga da sua terra, Odivelas, naquela altura uma zona de quintas, com pouca construção e uma ribeira de água limpa eternizada pelas lavadeiras de Caneças. A festa, com muitos convidados, decorreu no salão da Sociedade Columbófila de Odivelas, numa das principais avenidas da cidade e não muito longe da casa onde Ludgero vivia com a sua mãe e um irmão mais novo. O casamento, porém, durou pouco tempo. Após o nascimento da filha, hoje em Inglaterra, consumou-se o divórcio.

Ludgero jogava futebol, era essa a sua profissão. Passou uma temporada nos juvenis do Benfica e integrou depois a equipa de júniores do Odivelas Futebol Clube. Jogou ainda nos séniores do Grupo Desportivo de Loures e, mais tarde, ocasionalmente, jogava com os veteranos do Benfica. Era avançado, rematava com força à baliza, quase sempre depois de uma assistência de Veloso, que se tornara seu amigo inseparável desde os 14 anos. Numa fotografia a preto e branco da equipa de júniores do Odivelas, lá estão eles, mãos atrás das costas, camisolas de cor clara, calções escuros e curtos e meias brancas até ao joelho. Ludgero sorri, em tom de desafio, o cabelo preto e liso penteado com risco ao lado; José Veloso tem um rosto sério e a cabeça levantada.

Os dois amigos viviam perto um do outro e não foi apenas o futebol que os uniu. Pregavam partidas a outros rapazes da zona no Pego das Latas, “a nossa piscina em Odivelas”, lembra José, gostavam das mesmas bandas de música e, após o 25 de Abril, juntavam-se a mais amigos para peregrinações nocturnas a Lisboa – sobretudo ao Maxim´s, na Praça da Alegria. José recorda-o como um jovem “brincalhão”; Humberto Fraga, ex-presidente do Odivelas Futebol Clube e uns anos mais novo do que Ludgero, lembra-se do rapaz de cabelo preto comprido, que tinha “muito sucesso” junto das raparigas e uma vida de “boémia”.

Na segunda metade dos anos 70, Ludgero conseguiu formar uma pequena banda de rock que ainda chegou a actuar no salão dos bombeiros, mas desse concerto já não existem quaisquer registos. Tocavam músicas dos Uriah Heep, Ludgero era o vocalista. Pouco depois, conta José Veloso, tornou-se “uma espécie de agente” dos Aranha, um dos grupos pioneiros do rock progressivo nacional, liderado pelo guitarrista Luís Firmino, que emigrou para os EUA e hoje toca na The Atomic Band. No apartamento de Santo António dos Cavaleiros, restavam algumas recordações desses tempos: uma viola e uma colecção de vinis (Pink Floyd, Queen, Genesis, mas também Michael Jackson, Tina Turner, Elvis Presley, Barbra Streisand). Sandra Cruz e Paulo Melo, os amigos mais próximos de Ludgero e Manuela no último ano e meio, dizem que, nos derradeiros meses de vida, ele passava tardes inteiras a ver o canal de música VH1, deitado na cama, ainda de pijama.

©osomeafuria“Eles fugiram do mundo”

Terá sido no fim do decénio de 70 que Ludgero conheceu Manuela, filha dos donos de um café em Odivelas e irmã de três rapazes e uma rapariga. Manuela já tinha uma filha, mas deixara-a ao cuidado do ex-marido após a separação. O encontro precedeu a entrada de Ludgero no Banco Fomento Exterior – a direcção do banco queria formar uma equipa de futebol de salão e precisavam de um bom avançado. José Veloso, que já trabalhava nesta instituição, na Avenida Casal Ribeiro, em Lisboa, pensou imediatamente no amigo. A proposta era aliciante: jogava na equipa e ganhava um lugar no quadro do banco. Após uma entrevista, Ludgero foi aceite. Com a camisola do Banco Fomento Exterior, José e Ludgero jogaram nos torneios nacionais interbancários, mas foi nos campeonatos de futebol de 11 promovidos pelo INATEL que a equipa granjeou fama.

O salário de Ludgero e de Manuela, funcionária administrativa no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, permitiu-lhes comprar um pequeno apartamento num prédio de três pisos, situado numa das ruas mais movimentadas de Odivelas, a Major Caldas Xavier. Actualmente, a rua já não tem tantas lojas como outrora, mas ainda há comerciantes que resistem à proximidade dos centros comerciais. Nos poucos apartamentos do número 34 todos se recordam do casal que vivia no 3º direito. Fátima e Maria, que, até Outubro do ano passado, quando foram confrontadas com a notícia do suicídio, julgavam que Manuela e Ludgero estavam a viver na Póvoa de Santo Adrião, lembram-se de duas pessoas reservadas, mas muito cordiais. Maria recorda com especial carinho o cão do casal, Dick, “grande e com pêlo castanho claro”, que “era muito inteligente”. “Parecia uma pessoa”, diz, contando que era Dick quem ia buscar o jornal desportivo ao dono. “O senhor Ludgero atava um saquinho com dinheiro à coleira e o Dick já sabia que tinha de ir buscar o jornal à papelaria. Depois trazia-o na boca. E quando acompanhava a senhora Manuela ao café, no fim da rua, sentava-se a olhar para ela e ficava ali, especado, até ela lhe dar um doce.” Quando os donos foram obrigados a abater o cão, devido a uma doença fatal, “ficaram muito tristes”. Aliás, todos os residentes do prédio ficaram tristes, diz Maria, que soube da morte de Manuela e Ludgero através da imprensa. Recorda que ele “ia muitas vezes à farmácia”, regressando com “sacos cheios de embalagens”.

Ludgero era hipocondríaco, mas nesta altura, em que subia as escadas até ao 3º andar com o saco da farmácia, estava já a entrar numa fase de depressão. A condição depressa o impediu de trabalhar. Com quarenta e poucos anos reformou-se do Banco Fomento Exterior, ainda antes de este ser adquirido, em 1996, pelo actual BPI. A ausência de uma ocupação acabou por acelerar o estado depressivo. José Veloso costumava encontrá-lo sentado num banco de jardim, numa pequena praça localizada junto àquele prédio de três pisos, a ler A Bola. “Muitas vezes precisava de desabafar. Disse-me que tomava 22 comprimidos por dia e que tinha uma depressão reactiva, que teria de tomar medicação até ao fim da vida.” Passavam muitas horas a conversar, mas José guarda os segredos do amigo. Continua a falar dele como se estivesse vivo. “Por vezes, até chegava atrasado ao banco porque não era capaz de deixá-lo sozinho.”

Na pequena casa de Odivelas, com apenas um quarto, Manuela tentou suicidar-se, por três vezes, sempre através da ingestão de comprimidos. Também ela sofria de depressão, tendo sido acompanhada por vários psiquiatras, em diferentes hospitais. Em Santo António dos Cavaleiros, o cocktail diário de medicamentos que tomava era já o resultado de alterações e misturas. Raramente estava satisfeita com as recomendações médicas. Por isso, o pequeno percurso até ao café Seripipi era muitas vezes feito em passos cambaleantes e alguma quedas. Numa das quedas, em que ficou com uma das pernas cheia de hematomas, foram as crianças do bairro, que costumam jogar à bola na praça, que lhe acudiram, amparando-a até à porta do prédio.

A partir de certa altura, Ludgero começou a falar a José Veloso sobre a Igreja Universal do Reino de Deus. Aos fins-de-semana, o casal viajava para Lisboa para assistir às sessões da IURD no antigo Cinema Alvalade, na Avenida de Roma. Mas deixou de o fazer quando se mudou para Santo António dos Cavaleiros. Aqui, Manuela começou a interessar-se por espiritismo, deixando na casa uma volumosa biblioteca dedicada ao tema. José recorda-se que Ludgero estava interessado no assunto, mas não deu muita importância. Paulo e Sandra, no entanto, lembram-se que, nas conversas que se prolongavam noite fora, no apartamento de Ludgero e Manuela, o casal falava recorrentemente sobre “a vida depois da morte” e, por vezes, citava de cor “passagens da Bíblia”.

Há cerca de cinco, seis anos, Manuela quis sair de Odivelas. Ludgero fez-lhe a vontade, apesar de aquela casa estar paga. Venderam o andar na rua Major Caldas Xavier, retiraram as mobílias e electrodomésticos, não se despediram dos vizinhos e dos poucos amigos que tinham, não deixaram qualquer endereço, não contaram a ninguém que iriam para Santo António dos Cavaleiros, freguesia não muito longe de Odivelas. Pediram um empréstimo bancário e escolheram o 4º andar de uma torre construída há cerca de 30 anos. A mudança trouxe consigo novos hábitos – Ludgero começou a fumar, tal como Manuela, cerca de três maços por dia – e um maior isolamento voluntário. Cortaram ligações familiares e de amizade. José perdeu um telemóvel e o número de Ludgero. Este nunca lhe telefonou e, em Odivelas, José não sabia a quem recorrer para saber do paradeiro do amigo. Ninguém sabia onde estava o casal Matias, casados há alguns anos, após décadas de união. “Eles fugiram do mundo”, diz José.

Manuela e Ludgero, Sandra e Paulo

Nada em Santo António dos Cavaleiros alterou o estado de depressão em que ambos viviam. Pelo contrário. Manuela conseguia ir trabalhar apenas por breves períodos, ficando frequentemente em casa com baixa médica. Mas não deixava de sair. Com Lucília, vizinha do rés-do-chão e um dos poucos conhecimentos que tinha no prédio, gostava de ir ver as montras das lojas do centro comercial mais próximo. Tornou-se uma “compradora compulsiva” e isso incomodava Lucília. “Eu não podia dizer-lhe que gostava de uma coisa. Ela comprava logo.” Por vezes chegava a casa com sacos cheios de roupa nova, sobretudo na época em que começou a engordar. “Ela foi ficando cada vez mais sozinha porque eu, tal como outras poucas amigas, senti que também estava a ser arrastada para aquela depressão. Não consegui aguentar e afastei-me.”

Manuela continuou a comprar roupa, anéis com grandes pedras coloridas, de fancaria, pulseiras, colares. Taruna, proprietária da loja Modas Nélita, conta que Manuela passava ali quase todos os dias, comprava sobretudo calças e blusas. Pedia fiado, mas Taruna nunca esperava muitos dias pelo pagamento. “A última compra que fez, a fiado, foi um tapete de casa-de-banho.” Manuela seguia depois para a esplanada coberta do café. Levava quase sempre um livro e ficava ali algumas horas, até ao fim do dia. Ludgero costumava acompanhá-la. Antes de se sentar a ler o jornal, costumava espreitar o jogo de cartas que ainda hoje junta uma dezena de homens numa das mesas do Seripipi.

Numa dessas tardes, há cerca de quatro anos, Paulo e Sandra, que frequentavam o mesmo café, repararam naquele casal. “Está ali um casal que é como nós”, disse Paulo. No entanto, a amizade entre os quatro só viria a fortalecer-se há cerca de um ano e meio. O motivo foi um cão de raça mini toy, de pêlo branco, encontrado na rua e deixado na loja de Taruna. A lojista ofereceu-o a Conceição Félix: “Mas eu lembrei-me logo da dona Manuela e decidi perguntar-lhe se ela o queria. Ela disse logo que sim.”

O Dusty, assim baptizado por Lucília, em homenagem a um cão que morrera muitos anos antes, acabou por juntar Ludgero e Manuela a Paulo e Sandra, que sempre gostaram de animais. A partir de então, Paulo, 45 anos, e Sandra, 44, passaram a ser visita quase diária no 4º C. A proximidade das habitações e algumas afinidades (“por vezes também nos sentimos muito sozinhos”, diz Paulo) ajudaram a cimentar a amizade. “Aos fins-de-semana íamos lá jantar – nunca comi tanto entrecosto e batata frita na minha vida, porque ela não descongelava nada e ia sempre comprar entrecosto para grelhar – e ficávamos a conversar até às quatro ou cinco da manhã. Falávamos de tudo: de política, de livros, mas também da excessiva medicação da Manuela. Nessa questão eu tinha sempre discussões com o Ludgero, que achava que ela não tomava comprimidos a mais”, conta Sandra. Que diz quase nunca ter ouvido qualquer palavra de ambos sobre as respectivas famílias – a excepção foi quando Manuela disse ter uma filha. Um dia, Ludgero perguntou a Paulo que método escolheria para se suicidar: “Eu disse-lhe que preferia a chamada morte doce, com gás. E ele respondeu-me que tinha uma muito melhor. Mas não me disse qual. Eu não quis prolongar a conversa e não perguntei.”

Quando Paulo e Sandra passaram a frequentar o apartamento de Manuela e Ludgero, já este quase deixara de sair de casa. Passava o dia de pijama, invariavelmente a ver televisão, mas, diz Sandra, preparava sempre a mesa da sala para o jantar, às 18h00 em ponto. De noite costumava levar o Dusty à rua. Lucília, que tem a janela da sua marquise virada para a entrada do prédio, conta que Ludgero soltava o cão e ficava ali, encostado à porta, a fumar. Sempre de pijama e roupão.

Sandra chegou a fazer limpezas na casa dos novos amigos. “Aquilo estava um caos porque já não tinham empregada há algum tempo. Havia muita roupa em cima do sofá e a cozinha precisava de uma boa limpeza.” Quando rebentaram alguns canos no apartamento de Manuela e Ludgero, Sandra passou a lavar-lhes a roupa na sua própria casa. O problema nas canalizações não foi resolvido porque “eles queriam que fosse accionado o seguro do prédio”. Manuela ia tomar banho a casa de Sandra e Paulo; Ludgero lavava-se com toalhetes.

Na manhã de 14 de Setembro, Paulo encontrou Manuela no Seripipi, como era costume. Ela levava o Dusty e um saco de plástico. “Perguntou-me se eu poderia ficar com o cão durante uns dias porque ela e o Ludgero iam estar, até quarta-feira, em casa de um irmão dela. Disse-lhe que sim, claro. Eu gosto muito do Dusty.” Contudo, quando chegou a casa e viu o conteúdo do saco – um champô, comida, uma escova e a roupa de Inverno do Dusty –, Paulo achou que algo de errado se passava. A sua desconfiança aumentou ao lembrar-se que Manuela lhe pedira para não irem lá a casa porque o marido “estava muito mal disposto”. Contou a Sandra e esta decidiu visitar o casal ao fim da tarde.

Ludgero recebeu-a de pijama, como sempre. “Entrei e fui para a sala. Em cima do sofá estava uma mala castanha fechada. A Manuela parecia ter dificuldade em olhar para mim. O Ludgero perguntou-me se ela já me tinha pago o que me devia das limpezas. Eu respondi que depois acertávamos contas e ela, atrás dele, agradeceu-me em silêncio, com as mãos unidas. Expliquei que estava ali porque eles se tinham esquecido dos brinquedos do Dusty e fui eu mesma procurá-los. Depois, o Ludgero disse-me que o irmão da Manuela estava prestes a chegar e que eles preferiam estar sozinhos para o receber.” Foi a última vez que os viu.

Sandra e Paulo esperaram por quarta-feira. Ao fim do dia, telefonaram para os telemóveis e para o telefone fixo. Havia sinal de chamada, mas ninguém atendia. Decidiram esperar até Domingo, pois o casal poderia ter prolongado a estadia em casa dos familiares. Nesse Domingo, Sandra tomou a decisão de contactar a PSP. Em vão. Responderam-lhe que não tinham recebido qualquer alerta de familiares. Tentou a Polícia Judiciária, voltou a tentar a PSP. Novamente em vão. Paulo levou o Dusty até à entrada do prédio – queria levar o cão à porta da casa “para ver se ele cheirava alguma coisa estranha” –, mas encontrou Conceição e acabou por não subir ao 4º C. “Ela disse-me que também achava estranho aquela ausência e notou que o cortinado do quarto estava fora da janela.”

Mais de duas semanas após Manuela ter sido vista pela última vez, Paulo observou o aparato de carros de polícia, bombeiros e ambulâncias à entrada do prédio e pensou de imediato: “Eles estão mortos.” Levava consigo o Dusty. Um agente da PSP perguntou-lhe se ele sabia se poderia haver “comida em decomposição na casa”. “Não é comida, são eles que estão mortos”, respondeu-lhe. “Eu até sabia que eles só poderiam estar na cama. Quando não estavam connosco ou a jantar, estavam deitados”, explica. Sandra acredita que Manuela e Ludgero deixaram uma carta. E que nessa carta escreveram sobre os seus novos amigos. Mas as autoridades não descobriram nada. “Perdemos estas pessoas. Foi bastante mau. Não compreendo por que fizeram isto. Acho muito estranho não nos terem deixado uma carta. Por que é que o fizeram?”, questiona Paulo.

Poucos dias após a descoberta dos cadáveres de Manuela e Ludgero, Paulo e Sandra entregaram o cão a Conceição Félix. Não tinham condições para ter o Dusty e optaram por dá-lo a quem o tinha encontrado. Conceição deu-o aos netos.

José Veloso, mal soube do que acontecera, correu para Santo António dos Cavaleiros, à procura de qualquer informação. Queria estar presente no funeral. Procurou na igreja, mas ninguém sabia dizer-lhe onde seria a cerimónia. “Eles fugiram do mundo, dos amigos, dos familiares”, repete, “não foi o contrário”.

No 4º C há agora duas janelas abertas – a do quarto e a da sala, ambas com os cortinados do lado de fora – e o interior está intacto, tal como Manuela e Ludgero o deixaram. A electricidade foi desligada, retirados os alimentos do frigorífico e do congelador, e sobre o colchão foram deitados vários litros de lixívia pura.