“Eu não quis ir lá para o capim e escolhi o bacalhau”

Entre uma ida à ria, na Costa Nova, para apanhar berbigão e um almoço com arroz do mesmo, Vicente Fradoca Branco, 70 anos, revive o tempo em que trabalhou num navio bacalhoeiro. Durante oito anos arriscou a vida nos dóris, pescando bacalhau à linha. “Era uma faina porca, não tem outro nome”.

Vicente Fradoca Branco

(Maria José Oliveira, entrevista e edição )

Novembro 2013

Nasci aqui nas areias. O meu pai era de Ílhavo e veio para a praia da Costa Nova porque era pescador. Foi sempre pescador e morreu pescador. Foi ao bacalhau num navio chamado Sernache, de Lisboa, e andou nas traineiras em Matosinhos. Também andou à pesca da enguia na ria. Chegou ao seu destino e morreu.

Isto de ser pescador é uma doença, pega-se uns aos outros. Tirei a cédula marítima aos 12 anos e sou pescador até hoje. Tenho cinco filhos, três rapazes e duas raparigas. E os rapazes também são pescadores, mas dois emigraram para a Alemanha porque isto está muito mau. O outro anda no mar. Casei com a Gina quando tinha 22 anos e ela 18. Casámos em Fevereiro e em Março deixei-a para ir para o bacalhau. Só regressei a 15 de Outubro. Ela era tão linda e ficou sozinha. Conhecemo-nos na Costa Nova. Ela era costureira, a família tinha vindo de Ílhavo e Esmoriz – também gente do mar. A Costa Nova só é habitada há 250 anos. Isto era um monte de areia – se não houvesse ponte era uma ilha.

Fui para a pesca do bacalhau porque no tempo do Salazar ou íamos para África, para a tropa, ou íamos para o bacalhau. Eu não quis ir lá para o capim, para o meio do mato, e escolhi ir para o bacalhau. Antigamente as moças queriam um rapaz do bacalhau, achavam que ganhava muito dinheiro. E na verdade um conto de réis naquela altura era muito dinheiro.

Lembro-me perfeitamente da minha primeira viagem. Fui no barco do capitão Zé Veleirinho. Éramos quase 100 homens, entre pescadores, motoristas, enfermeiro, capitão, imediato e piloto. Não estava habituado àquilo – era uma grande confusão nos primeiros dias. Era uma vida muito arriscada.

Um bote é um caixão. Nessa viagem a pesca não correu muito bem e eu mudei para outra empresa, da Gafanha da Nazaré. Mas logo por azar um cunhado meu morreu afogado na Gronelândia. Ele ia no dóri, estava uma brisa, que é o que chamávamos às tempestades, e o capitão mandou-os para o mar para apanhar 200 quintais de bacalhau. Mas a brisa apareceu antes do previsto e apanhou todos no mar. Podia ter morrido metade da campanha, só morreu o meu cunhado. Veio uma onda, o dóri virou-se e passado algum tempo apareceu junto ao bacalhoeiro. O corpo nunca mais foi visto. Usava uma botas de cabedal e foi pelo fundo abaixo. Foi a 4 de Julho de 1963, há 50 anos. Quando soube da morte dele eu já não quis arrear. Tive medo. Fui no bacalhoeiro apenas como moço e assim tinha outras regalias: tinha um foquim com batatinhas cozidas, azeitonas e marmelada.

A gente quando vai na primeira viagem somos os verdes. Depois há os maduros, que têm mais calo. São os mais velhos que tomam conta dos mais novos. Cada um pegava no seu dóri – 70 homens a deitarem os botes do navio para a água. O verde tinha um bote e o maduro tinha outro, seguindo sempre de perto o mais novo, para o orientar se aparecesse névoa, se viesse brisa, se o bote estivesse carregado de mais. Normalmente arreávamos nos dóris por 30 dias. Saíamos de manhã e acabávamos o trabalho por volta da meia-noite.

No dóri tínhamos um cesto, à proa, com linha e bocadinhos de lula e cavala e ainda dois mil ou três mil anzóis. A linha tinha um ferro e um balão na ponta. Depois de deitar a linha ao mar tínhamos de esperar. Eu tinha um relógio com uma protecção de madeira feita pelo meu pai e guardava-o sempre junto ao peito. Quando ouvíamos a sirene do navio ou víamos uma bandeira preta no mastro, puxávamos a linha e o bacalhau boiava. Tínhamos de usar umas luvas de borracha para não cortar as mãos e íamos colocando o bacalhau na ré. Quando a ré estava cheia, o bacalhau era colocado na proa, para controlar o barco. Se não arreávamos de ré. Quando o barco não carregava mais, deixávamos o balão no mar e íamos descarregar ao navio. Depois regressávamos para carregar outra vez o resto do bacalhau.

Dormíamos três a quatro horas por dia, cheios de sangue do bacalhau, cheios de porcaria. Tomava-se banho ao fim de seis meses. Comida não faltava – até era um bocadinho à ‘bardajona’: batatas cozidas com pele, bacalhau, e o navio carregava barricas de carne, chispe, e matavam-se quatro bois para a viagem. Não se morria à fome. Só a água é que era pouca. Água para beber não faltava, mas não havia para tomar banho. Quando chovia aproveitávamos para lavar o que era preciso. Tínhamos as mãos sempre cheias de sangue do peixe. Era uma faina porca, não tem outro nome.

Era uma vida dura. Estávamos no mar seis meses e o navio recebia tudo o que a Natureza mandava: os ventos, as tempestades, o mar a partir na proa. O navio podia vir carregado de 20 mil quintais de bacalhau e davam-nos uma côdea do lucro. E às vezes éramos maltratados. Alguns capitães chegavam a bater nos homens, insultavam-nos. Hoje já não é assim: se algum capitão fizer isso é deitado borda fora.

A primeira vez fui para a Terra Nova e depois para a Gronelândia. Houve anos em que vínhamos carregados de bacalhau, outros nem tanto. Descarregávamos nas gafanhas, onde estavam os cais dos navios e os armazéns para as mulheres secarem o bacalhau. E havia uma coisa muito boa: o próprio bacalhau. Hoje não, é tudo congelado. Era a melhor coisa que o país tinha; o país estava rico.

Essa faina já acabou. Era uma vida estúpida. Íamos para lá só para livrarmos à tropa, mas com 20 anos eu queria tomar banho à minha maneira e nem isso podia. Quando chegávamos a St. John’s, no Canadá, aquilo era tudo nosso. Tínhamos lá uma casa para tomar banho à vontade e às vezes até víamos filmes e tudo. Depois íamos dançar com as raparigas; elas gostavam muito dos portugueses para dançar. Aquilo era um espectáculo. Não falávamos muito, mas por sinais elas percebiam tudo. Eu falava pouco inglês: ‘Do you like português? Oh, yesssss’. E levavam-nos para casa delas, que eram de madeira e muito quentinhas. É a vida. A gente não pode contar tudo. Eu era maroto para as raparigas. Mas não as tratava mal! Era um apaixonado pela Mulher. Se eu fosse à televisão e me perguntassem quem é que eu sou eu responderia que sou um apaixonado pela Mulher. E não ia preso. Aos 20 anos eu era bem parecido: moreno, alto. E elas adoravam os morenos. Percebia as conversas delas, não era parvo.

Na Gronelândia era diferente. As raparigas iam para dentro do barco. Cada um tinha a sua mulher. Um certo pescador chegou a ter duas mulheres no camarote. Elas adoravam os portugueses, ficavam cegas. Seis meses sem uma mulher? Aquilo era uma loucura.

©osomeafuriaUma talhada de melão e uma pingota

Estive oito anos na pesca do bacalhau. Quando voltei e vi que tinha livrado à tropa não quis trabalhar mais nos bacalhoeiros. Anos mais tarde, já na pesca por arrasto, ainda regressei aos bacalhoeiros. Estávamos seis meses no mar e os outros seis a descansar. Também trabalhei nas traineiras. Aliás, trabalhei muito. Graças a Deus fiz a minha obrigação. Depois das traineiras, andei aqui na costa, à pesca da faneca. Tive a sorte de encontrar trabalho num bom barco e estive lá 24 anos. Foi quando fiz a casita e criei cinco filhos. Nessa altura fui à Somália, andei em Vigo, em Marrocos, onde há pargo mulato e muita corvina.

Em Vigo tive azar. Um tronco de madeira que tinha caído de um navio de carga bateu no nosso barco e arrombou-o. Eu estava no camarote e dei por ela. Estava a dormir e senti um ‘tac, tac’. Pensei ‘o que é isto?’ A malta estava toda a dormir. Fui avisar o mestre de leme, que era meu cunhado, e disse-lhe para abrir a tampa da proa, onde metíamos o tabaco e o whisky. Quando ele levantou a tampa o barco já estava cheio de água. Chamaram um helicóptero e um barco espanhol que estava perto veio socorrer-nos. Em uma hora o navio foi ao fundo. Só morreu uma cadela, que era tão minha amiga. Ainda a agarrei junto a mim quando estava quase a saltar para a lancha, mas o meu patrão disse-me ‘não, não, que ela pode romper a jangada com as unhas’. E a cadelinha ficou lá. Eu tinha-a ao colo, junto a mim, e tive de a deixar.

O navio foi ao fundo e eu fui para o fundo de desemprego. Andei no mar até há 16 anos, altura em que me reformei. Sempre gostei de ter barcos, mas para não ser incomodado pela Polícia Marítima e pela Segurança Social, vendi um que tinha. E comprei um desportivo. Pesco robalinhos, pesco à linha com anzóis, numa linha que eu fiz, sem canas. Tenho licença e isso tudo. E estou muito contente. No Verão como uma talhada de melão, bebo uma pingota que não me faça mal e ali passo uns bons bocados. Apanho peixe a saltar e berbigão na ria. A minha mulher faz um arroz de berbigão com pimentos que é uma maravilha.