Estaleiros de Viana: o fim

Todos os dias vestem o fato de macaco, calçam as botas, e esperam. Esperam que o trabalho chegue, esperam que o tempo passe, esperam saber que futuro vão ter enquanto trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Onde antes se construíam navios, hoje pesca-se, joga-se às cartas, passeia-se, tocam-se instrumentos, escrevem-se peças de teatro. E desespera-se.

Rita Ferreira

Dezembro 2013

São quatro da tarde. Parados numa curva a caminho do Monte de Santa Luzia, quase a chegar ao topo, ouve-se a sirene que dá por terminado o dia de trabalho nos estaleiros de Viana do Castelo. É sexta-feira e por isso sai-se meia hora mais cedo. Quem apenas chegue ali àquela hora, e olhe à distância os enormes guindastes, o navio de guerra acostado, os homens a passar pelos torniquetes, não nota que há muito que a paisagem mudou. Dali do alto já não se ouve o barulho dos martelos no aço, um som que quase compassava a vida da cidade. Dali do alto já não se vêem guindastes a mexer, centenas de homens a trabalhar, barcos a chegar, barcos a partir.

Vítor Vieira sai de Vila Franca todas as manhãs para, às oito horas em ponto, estar a passar os torniquetes que dão acesso aos estaleiros. Tem 44 anos, é casado e pai de duas filhas. A rotina matinal começou em 1989. Entra, dirige-se aos balneários, veste o fato de macaco azul com a inscrição ENVC (Estaleiros Navais de Viana do Castelo) a amarelo nas costas, calça as botas de biqueira de aço, coloca o capacete e num local combinado, ao ar livre, apresenta-se ao chefe da sua secção, a montagem. Se estiver a chover encosta-se a um canto para ouvir a chamada e dizer presente. Só que agora, em vez de distribuir tarefas, o chefe anuncia: “Vão à vossa vida.”

Há quase dois anos que 609 trabalhadores não têm praticamente nada para fazer. Mas têm de estar nos estaleiros das oito ao meio dia e das duas às quatro e meia da tarde. A indecisão sobre o futuro desta empresa pública – um plano de restruturação que ficou suspenso, uma tentativa de reprivatização que não avançou – levou a que deixasse de chegar trabalho aos estaleiros. Pelo menos trabalho que justifique a actividade em pleno. 

Está frio pela manhã em Viana, mas o sol vai despontar não tarda. Para lá dos torniquetes por onde já passaram os trabalhadores, o que se vê é no mínimo bizarro, para não dizer desolador. Electricistas, soldadores, serralheiros, manobradores de maquinaria pesada, homens de trabalho, trabalho duro, gente especializada, válida, homens de músculo, pais, filhos, cunhados, companheiros de histórias de navios e de mar andam agora a vaguear por ali. Um dá comida aos pombos. Dois seguem em passo apressado – ao menos que as pernas não emperrem, uma caminhada pela manhã ajuda a manter a cabeça sã. Um outro, desafiando o olhar dos estranhos que estão do lado de fora dos torniquetes, traz uma mala de viagem preta com a palavra MARTIFER escrita a giz. Coloca-a no centro do pátio. Volta para trás e regressa com uma cadeira.

Ali fica aquilo. Uns passam sem ligar, outros comentam, outros olham enquanto fumam mais um cigarro, encostados a um dos armazéns, do lado que bate o sol. Fica-se sem perceber a razão do que parece ser um protesto. “Assim que o sol aparece toda a gente sai para fazer umas caminhadas”, conta Alberto Peixoto. Até lá, aquecem-se com as fogueiras que ateiam dentro de bidões de ferro.

Pescadores e dramaturgos

Vítor Vieira não gosta de pescar, por isso não se junta aos homens que todos os dias lançam a linha ao mar e apanham camarões, congros e outras qualidades de peixe. Mesmo que a capitania por vezes venha reclamar as licenças, que não existem, o grupo dos “pescadores” regressa todos os dias. Cada um tem o seu lugar marcado.

A falta de trabalho aguçou engenhos a quem tem de ocupar os dias com outra coisa qualquer que não seja a tarefa para a qual foi contratado e pela qual é pago todos os meses. “Eu passo horas ao computador. Foi aqui que escrevi uma peça de teatro que encenei e que esgotou duas noites na minha aldeia”, conta Vítor. O grupo dos que gostam de estar ao computador, seja a ver filmes ou a jogar ou a escrever, preparou de raiz um espaço nos balneários. “Comprámos o material, as fichas, os cabos e fizemos uma instalação eléctrica para podermos ter os computadores ligados. Também arranjámos mesas, que construímos, e fomos ao refeitório pedir cadeiras, porque há lá muitas de sobra. Criámos as nossas condições para podermos estar ali o dia todo sem trabalhar”, explica Vítor Vieira.

Nesta sexta-feira houve trabalho para Alberto Peixoto. Durante trinta minutos. “Fui o único do meu sector. Subi a um guindaste, peguei numa placa e tirei-a para o cais. Depois tirei outra placa do cais e pus a bordo do navio”, diz, encolhendo os ombros. Alberto tem 56 anos e trabalha nos estaleiros desde 1982. Começou nas limpezas e agora está no sector dos transportes, aquele que entrou mais tarde “no improdutivo”.

Um dia com algum trabalho é agora uma excepção à regra que se foi impondo pela falta de coisas para fazer. Tal como os outros, Alberto teve de criar uma nova rotina. “Chego de manhã e até às nove faço uma caminhada. Por volta das nove e meia como uma bucha que levo de casa, uma sandes, um iogurte. Depois, meto-me num cubículo e toco cavaquinho até ao meio dia.” O problema é quando chove, desabafa. As condições para abrigo não são as melhores e à medida que o trabalho foi escasseando, foram-se perdendo outras coisas. “Trazemos o papel higiénico de casa e o sabão. Há tempos tivemos de reunir os companheiros de trabalho para fazer uma limpeza ao balneário, tal era o lodo acumulado. Houve sectores que compraram detergentes para fazer limpezas. A limpeza das casas de banho é feita em modo de voluntariado”, conta.

O ambiente é tenso. Muito tenso. “Em termos mentais e de gestão psicológica está no limite. Temos de ser nós próprios a saber controlar-nos”, refere Martinho Cerqueira, neste momento o trabalhador mais antigo dos estaleiros. E a certa altura, até as pequenas reparações ficam por fazer. “As telhas partidas deixaram de ser substituídas, as oficinas metem água, houve uma altura que nem lâmpadas para trocar havia”, revela.

O pouco trabalho que aparece na manutenção é Martinho que distribui. E mesmo isso acaba por ser um problema. “Se há apenas uma coisa para fazer naquele dia, quem é que eu vou mandar?” Martinho suspira. “As pessoas estão a ficar desesperadas. É de uma tristeza… É uma desilusão e uma revolta.”

Há quem não tenha aguentado. Sem nunca falarem em nomes, os trabalhadores contam duas histórias de suicídio que ocorreram nos últimos dois anos. A mais recente, a de um homem encontrado morto em casa, depois de dois dias sem aparecer. Contam que terá ingerido comprimidos. A outra, mais traumática ainda. Um homem que se atirou ao mar e cujo cadáver apareceu junto aos estaleiros, dias depois. Alguém deu o alerta depois de ter visto o que parecia um corpo a boiar. Chamaram os bombeiros e veio a macabra confirmação.

No tempo das formigas

Os estaleiros estão marcados na cara de Vítor Vieira. A cicatriz que lhe apanha o lábio e o nariz fê-la com uma rebarbadora. “O disco entalou, eu não aguentei a máquina e veio-me à cara. Partiu-me os dentes e cortou-me o lábio e o nariz. Tinha óculos e resguardo senão tinha-me apanhado a cara toda. Lembro-me de sair do barco e depois não me lembro de mais nada até acordar no hospital, mas os meus colegas diziam que esguichava sangue. Foi no dia 4 do 4 de 2004.” O barco que estavam a construir deixou, contudo, boas memórias a Vítor. “O armador do navio gostou tanto do nosso trabalho que marcou um encontro com todos os trabalhadores para nos oferecer presentes. Deu-nos um saquinho com areia que era uma tradição lá do país dele – ele era árabe – e um crucifixo de madeira. Depois mandou a administração dar um prémio de 200 euros a cada um. Era um navio de carga, de trabalho, mas ele tinha mandado construir um jardim lá dentro para os marinheiros descansarem. A preocupação dele era que o trabalhador tinha de se sentir bem para trabalhar.”

A imagem que Martinho Cerqueira guarda do primeiro dia de trabalho nos estaleiros – tinha 14 anos – é de terror. “Foi no dia 3 de Novembro de 1962. Estava a construir-se o navio número 70, era um navio muito grande. A hierarquia era rígida, o contacto entre as pessoas distante. Havia muito receio e muito respeito, quase superior ao que tínhamos pelos nossos pais e olhe que nessa altura quando saíamos de casa pedíamos a bênção!”, lembra, abrindo muito os olhos verdes. Martinho já trabalhava desde os dez anos, e teve de voltar para a escola para poder ingressar nos estaleiros: “Só aceitavam quem andava na escola. Era uma revolução para a época.”

Foi ganhar 16 escudos por dia, “já era um amparo muito grande para a família”. O irmão andava na pesca do bacalhau e o pai, também trabalhador dos estaleiros, estava “nos balões”. Os balões eram os despedimentos. Entrava às 7h50 e saía às 17h00. Passava por casa para comer e seguia para a escola até à meia noite. “Íamos para ali para nos fazermos homens.”

No mesmo espaço que agora é ocupado por seis centenas de homens que andam em passo lento, à espera que o tempo passe, chegaram a trabalhar mais de duas mil pessoas. “Era uma selva, um stress maluco, pareciam formigas a andar de um lado para o outro”, lembra Gremílio Castro, 62 anos, já reformado, mas sentido com tudo o que está a acontecer aos estaleiros, e que ainda soube o que é estar dias e dias sem nada para fazer, à espera de uma campainha que toque para a saída.

©osomeafuria“Então? E nós?”

A notícia do despedimento de todos os 609 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo chegou a cada um deles “da mesma maneira que caiu para o mundo inteiro”, conta Alberto Peixoto. “Já estávamos em casa quando soubemos da decisão do Governo e andámos a telefonar uns aos outros para nos encontrarmos à entrada da empresa.” Já todos sabiam que o pior poderia estar para vir. Mesmo que em Junho tenha chegado um carregamento de aço que fez com que durante duas semanas todos tivessem trabalhado por turnos, para que de repente tudo voltasse a parar outra vez. Sem explicação, como quase sempre.

A subconcessão à empresa Martifer, que vai vigorar até 2031 e que cede os terrenos e as infraestruturas dos estaleiros navais, fez levantar um coro de críticas. Os jornalistas apareceram , o ministro da Defesa foi chamado ao Parlamento, escreveram-se crónicas, fizeram-se perguntas, levantaram-se suspeitas. No Sábado, dia 7, a Câmara Municipal de Viana, liderada por um antigo trabalhador dos estaleiros, montou um palco na Praça da República e chamou todos os vianenses para apoiarem a luta pela manutenção da empresa. Veio muita gente. Vieram deputados e eurodeputados, vieram ex-ministros, veio Mário Soares. Subiram ao palco e falaram. Vieram actores, cantores, motards e crianças. Houve discursos e aplausos.

À medida que a noite ia caindo, foram ficando cada vez menos. Quando um grupo de trabalhadores dos estaleiros subiu ao palco, na assistência já pouca gente restava e a maioria que ainda resistia ao frio eram colegas e familiares. O excerto da peça de teatro que representaram terminava com um grito: “Então? E nós?”

Vítor Vieira quis contar a sua história junto ao Forte de Santiago da Barra, de onde se vê a baía que dá acesso por mar aos estaleiros. É a olhar o Atlântico, o céu recortado pelos guindastes, que conta, com desalento, que este ano não haverá o convívio de Natal da empresa. Não virão os trabalhadores, nem as crianças conhecer os navios que os pais constroem, não haverá cabazes com bacalhau, azeite e nozes. Quem fez 30 anos de empresa não vai receber a medalha, a que todos os outros tiveram direito.

“A ver se isto fecha”, diz Vítor, resignado. Para logo emendar: “Não acredito, não consigo acreditar que feche.”