Duas famílias: o desemprego, a pobreza e a vergonha

Há cinco anos a fábrica de fiação encerrou e Joaquim e Manuela ficaram sem trabalho. Até hoje. Têm 56 anos e não possuem qualquer rendimento. Mário e Júlia, desempregados, têm dois filhos e 179 euros por mês. Duas famílias, duas histórias, ambas em Famalicão.

Maria José Oliveira

Outubro 2013

Nos primeiros dias de Julho de 2008, os 210 trabalhadores da fábrica de fiação de tecidos Oliveira, Ferreira perceberam que a unidade estava prestes a encerrar. Há alguns meses que reclamavam salários em atraso, recorrendo mensalmente a vários dias de greve. E continuavam “presos” aos seus postos de trabalho. Porque sempre que o atraso no pagamento dos ordenados estava quase a completar três meses, permitindo aos funcionários rescindirem os seus contratos por justa causa, a administração da Oliveira, Ferreira decidia pagar um ou dois dias de salário, impedindo assim os empregados de saírem da fábrica.

A Oliveira, Ferreira estava então perto de comemorar 100 anos. Aquando da sua fundação, e durante largas décadas, dedicava-se exclusivamente ao fabrico de flanelas e de telas cruas para estamparia, tendo sido uma das maiores empregadoras em Riba de Ave, freguesia pertencente a Vila Nova de Famalicão. Nesta vila, especificamente nas margens do rio Ave, estabeleceu-se um importante pólo de empresas que contribuíram também para que a região do Vale do Ave fosse baptizada como o berço da indústria do têxtil, da fiação e da confecção.

Em 2008, ano de eclosão da crise económica e financeira, a Oliveira, Ferreira mergulhou num processo de insolvência. Escasseavam as encomendas, a produção diminuiu e assistiu-se a uma fuga de clientes quando a situação da empresa foi tornada pública. A 22 de Julho, os trabalhadores receberam a notícia do encerramento da fábrica. Não ficaram surpreendidos. Há muito que aguardavam este desfecho. Ficaram sem emprego e sem os salários de Maio e Junho. Joaquim e Manuela estavam entre essas duas centenas de funcionários. Trabalhavam há mais de 40 anos na Oliveira, Ferreira, foi lá que se conheceram e casaram, foi o único emprego que tiveram até hoje. Ele como tintureiro de fio; ela como remetedeira, preparando os fios para o tear. Cada um ganhava pouco mais de 400 euros de ordenado.

Aos 51 anos iniciaram uma romaria em busca de trabalho. Bateram às portas de todas as empresas têxteis do concelho de Famalicão e em todas as respostas não variavam: “Diziam-nos que já tínhamos idade para tratar dos netos ou que já tinham trabalhadores a mais”, lembra Manuela. Atrás dela, Joaquim conclui: “Foi na altura mais difícil. Nunca mais tivemos sossego, nunca mais arranjámos trabalho.”

Ao fundo de uma rua em Riba de Ave, Joaquim acena a Aldina Silva, a assistente social da câmara de Famalicão que acompanha a situação do casal, indicando-lhe para estacionar defronte da sua casa. Manuela está à porta daquilo que parece ser a garagem de uma vivenda de um piso. À sua frente estende-se uma pequena horta cheia de couves de folhas largas, onde ainda se vêem grossas gotas de água do aguaceiro da manhã. A garagem é agora a casa de Joaquim e Manuela. Lá em cima, no primeiro andar, vivem a filha, o genro e a neta. “Só vamos dormir lá. É a melhor maneira de não incomodar o casal. Fazemos a nossa vidinha aqui”, diz a mulher. Na breve viagem entre Famalicão e Riba de Ave, Aldina explicara que o desemprego pode “desmoronar tudo”: em muitos casos, é o agente provocador de problemas familiares e conjugais.

A garagem transformada em casa improvisada de Manuela e Joaquim tem chão e paredes de cimento. Há pouca coisa: uma mesa comprida, sobre a qual está um banco de madeira; um fogão; um móvel de cozinha com loiça, um rádio e uma estatueta de Santo António; e uma máquina de lavar roupa. O aparelho de televisão e o frigorífico avariaram há algum tempo. Durante 14 anos, o casal prescindiu das férias e dos fins-de-semana e construiu, com as próprias mãos, a vivenda. “Até íamos trabalhar ao Domingo, para podermos ter mais algum dinheiro para a casa”, conta Joaquim, recordando que, por vezes, ainda conseguiam “tirar um dia para ir à Póvoa [de Varzim] ver o mar”. Agora não querem “arranjar desentendimentos no casal” e refugiaram-se na garagem.

Manuela continua a procurar trabalho. Tentou as limpezas, mas em Riba de Ave há muito que as famílias prescindiram desse “luxo”. “Começamos a ficar conformados que não adianta andar à procura. Trabalhei uma vida inteira, 36 anos e só estive de baixa médica uma vez, por oito dias, e agora chegamos ao fim, aos 50 e tal anos, e estamos desta maneira”, lamenta. Joaquim, que nunca se senta ao longo da conversa, acrescenta: “A gente luta com todas as energias que tem.”

Em Abril ficaram sem subsídio de desemprego. Tentaram candidatar-se ao Rendimento Social de Inserção, mas esta prestação foi-lhes negada porque teve em conta os rendimentos de todo o agregado familiar que vive na casa. “A filha ajuda-nos com os mantimentos”, diz Manuela. E na pequena horta, o casal vai plantando couves e cebolas. Recorrer ao Banco Alimentar seria um vexame. “Eu tenho vergonha dessa situação. Quem me visse a pedir poderia dizer ‘olha, aquela está a pedir e tem uma casa’.”

Daqui a um ano, quando completarem 57 anos, Joaquim e Manuela vão tentar pedir a reforma antecipada. Estão esperançosos. Mas Aldina Silva pede-lhes para não alimentarem muitas expectativas, lembrando o congelamento destes pedidos até 2014. Há excepções, ressalva a assistente social, mas é necessário preencher um conjunto de condições. O casal diz entender, mas Joaquim acalenta alguma confiança: “Espero que este calvário acabe dentro de meses.” De vez em quando, para “espairecer”, Joaquim vai dar um passeio pelo monte; Manuela encontra-se com a irmã para conversar. “Tentamos ao máximo seguir o caminho direito. Não vamos a restaurantes, não tomamos café. Tentamos pôr os problemas atrás das costas, mas não é fácil. E vamos perdendo a nossa autonomia”, afirma Joaquim.

Sem quaisquer rendimentos, o casal vai abdicando de tudo. Até dos medicamentos para a hipertensão de que sofre Manuela. “Nunca pensei em semelhante declínio do têxtil”, observa, num suspiro. No Vale do Ave, os 8 concelhos que compõem a região tentam, há vários anos, contrariar este declínio, promovendo feiras de emprego, por exemplo. O sucesso é residual. Actualmente, a taxa de desemprego em Famalicão é de 14,9%. E até ao final de 2013 poderá aumentar. Este mês mais uma fábrica têxtil fecha portas, a Fitor. O despedimento colectivo abrange 100 trabalhadores.

“Esperemos que isto mude”, diz Manuela, “porque os dias contam muito numa situação destas. Não são os meses, são os dias.”

“Tínhamos uma vida organizada”

Entre Riba de Ave e a nova casa de Mário e Júlia distam poucos quilómetros. Durante a viagem, Aldina Silva abre a pasta com o processo relativo a este casal, que ela também acompanha. Mário tem 55 anos, era vendedor, está desempregado desde 2011; Júlia, 50 anos, operária em fábricas de confecção desde os 18 anos, não tem trabalho há cinco anos. Têm dois filhos: um rapaz com 25 anos que teve de desistir de estudar no 2º ano de um curso superior numa faculdade do Porto; e uma rapariga com 18 anos e o 12º ano completo. “Tinham uma vida organizada. Mas o desemprego de Mário fez com que deixassem de pagar o crédito bancário, acumularam dívidas e multas, perderam a casa e agora estão a viver num apartamento arrendado. Entre os seus amigos e conhecidos são poucos aqueles que sabem qual a verdadeira situação que estão a passar”, explica Aldina.

O carro estaciona junto a um prédio de quatro pisos, de construção com poucos anos. É um bloco isolado no cimo de uma rua íngreme. Do outro lado da estrada vêem-se as chaminés e os pavilhões de uma estamparia têxtil. Mário está à espera de Aldina à entrada do prédio. Abre-lhe a porta e observa que têm de de subir até ao segundo piso pelas escadas. “Como não pagamos condomínio não podemos utilizar o elevador”, justifica. Lá em cima, Júlia repete as palavras do marido e pede desculpa.

O apartamento é luminoso. Tem três quartos, duas casas-de-banho, uma cozinha e uma sala, com um sofá, dois cadeirões e uma televisão. O único rendimento desta família, os 419 euros do subsídio de desemprego que Mário ainda recebe, são mensalmente contados ao cêntimo. Pagam 240 euros de renda. O resto tem de ser esticado para a água, luz, gás e alimentação.

Mário trabalhou muitos anos como vendedor em diversas empresas. A última era de distribuição alimentar. O seu salário era o sustento desta família de classe média. De um momento para outro ficou desempregado e o rendimento da família reduziu-se a zero. “Foi uma grande transformação. Tinha dois carros, saíamos para passear, jantávamos fora em datas especiais, como os aniversários, e agora nem o mar conseguimos ir ver. O carro que agora tenho foi-me oferecido pelos meus pais e pelo meu irmão”, conta Mário. Que não desistiu de procurar emprego. “Tenho uma boa agenda de contactos como vendedor, mas isso agora parece que não vale muito. E muitas vezes ainda me dizem que eu já devia estar a pedir a reforma.”

Júlia também não baixou os braços. Mas os dias em que ficava “à experiência” em lares, por exemplo, terminavam com uma resposta negativa. Não se absteve de procurar trabalho, mas necessita de ocupar o tempo e, por isso, dedica-se a fazer tapetes com retalhos de tecidos. “Este fui eu que fiz”, afirma, apontando para um tapete preto e cinza que está sob os seus pés, no meio da sala. Entretanto, Pedro, 25 anos, entra e senta-se a um canto. Estava quase a completar o 2º ano numa faculdade do Porto quando se viu obrigado a desistir dos estudos. Não pagava alojamento, porque continuava a viver em casa dos pais, mas o subsídio de desemprego de Mário não suportava propinas, material e livros. “Ele abandonou a faculdade por iniciativa dele. A bolsa que tinha não chegava para cobrir todas as despesas”, explica a mãe. Pedro conseguiu um trabalho temporário em Guimarães, a recibos verdes, e aquilo que ganha contribui um pouco para o rendimento mensal da família.

Susana, a filha de 18 anos, está no seu quarto. “É um bocadinho tímida”, justifica Júlia. Mas Mário vai chamá-la e pede-lhe para se juntar a eles na sala. Sentada ao lado da mãe, de cabeça baixa, lá vai respondendo a algumas perguntas. Gostaria de ser professora do ensino básico, diz, como se fosse uma criança a falar do que quer ser quando for grande. Com a ajuda de Júlia andou à procura de um emprego. Foi a uma entrevista e hoje vai estrear-se naquele que parece ser o último recurso no mercado de trabalho em Portugal: os call centers. No serviço de telemarketing de uma operadora de telecomunicações, Susana inicia o seu primeiro turno às 16h00 e termina às 21h30. Vai ganhar 200 euros de salário base e terá direito a comissões dependendo do sucesso do seu trabalho. Parece entusiasmada, apesar de tudo.

Mário está num processo de insolvência pessoal – uma solução a que recorreu quando deixou de ter quaisquer condições para pagar as dívidas. A casa que tinham comprado com um empréstimo bancário, um T4 Duplex, foi entregue a um administrador de insolvência, que agora está à procura de comprador para o imóvel. Se a casa for vendida, o valor da compra será usado exclusivamente para pagar dívidas. “Tenho alguma pena sobretudo pela localização da casa. E os meus filhos cresceram lá e brincaram lá, mas sentimo-nos bem aqui”, diz Mário, olhando para a família.

O desemprego arrastou consigo muitas mudanças na vida desta família. “Foi como se nos caísse uma montanha em cima. Tínhamos uma vida organizada e controlada. E, de repente, tive necessidade de recorrer àquilo que, na altura, eu achava que era só para toxicodependentes: o Rendimento Social de Inserção”, afirma Mário, acrescentando que receberam esta prestação social durante dois meses. Tiveram direito a pouco mais de 100 euros. “Era residual, mas já nos fazia muita falta.”

Com algum embaraço, Mário diz que teve de recorrer aos seus pais e pedir auxílio. Júlia percebe e continua: “Os sogros mandam carne, fruta. O pão é a minha sogra que paga todos os dias. Aproveitamos tudo. Houve uma altura em que eu fazia pão em casa, apenas com água e farinha. Nunca fomos de comprar luxos, mas comprávamos iogurtes para os miúdos e agora não podemos.” Mário interrompe e diz: “Fome nunca vamos passar.” O que é que nunca falta na mesa desta família? “Não falta leite, pão, arroz, massa e azeite”, enumera Júlia. E, apontando para o marido, prossegue: “Ele até diz que eu faço milagres. Aqui há dias fui à feira e com dois euros comprei batatas, cebolas, alface e feijão verde. Às vezes, à noite, comemos uma batatinha com ovo. E depois há alguns amigos que têm quintal e dão algumas coisas.” Mas nem todos os amigos sabem da verdadeira situação desta família. E eles querem que assim se mantenha.

Mário vai visitar os pais quase todos os dias. “O meu pai está reformado e gosto de estar com ele. Vamos tomar um cafézinho, que ele paga, e passeamos no parque.” Júlia prefere ficar em casa. Quando não está a fazer os seus tapetes, trata da lida da casa. “Vivemos um dia de cada vez”, diz. Mário explica que a família tenta “não pensar muito na situação” que vive. “Quando estou no quarto, ao computador, e ouço-os na sala, a rir de qualquer coisa que estão a ver na televisão, penso que afinal nem tudo é mau.”

Mas há momentos em que as carências se sobrepõem ao resto. Quando escasseia o dinheiro para Júlia comprar os medicamentos para a tiróide; quando Susana não pode colocar um aparelho dentário, nem comprar o champô dermatológico; quando vão ao supermercado munidos de uma máquina calculadora e mesmo assim recear a vergonha de ter de deixar algum produto já na caixa de pagamento. “Íamos todos os Verões para o Mindelo, mas não é isso que agora nos entristece. Há coisas que abdicamos de ânimo leve, que não são importantes. É mais irmos ao supermercado com máquina de calcular e ver se o dinheiro que levamos chega para tudo…”, diz Júlia. Mário acena afirmativamente com a cabeça.

Com a excepção de Aldina Silva, todos os nomes que surgem neste texto são fictícios.