Quando está a concorrer
O meu querido tentilhão
Logo começo a sofrer
Com nervos no coração
Bié, bié, bié, bié, tuim, tuim, tuim, tuim, cáscáchuéu!
De olhos fechados, parece uma tarde sossegada no meio de uma floresta, onde os pássaros cantam desde o topo das árvores. As melodias saem a um volume alto, mas não ao ponto de serem desagradáveis. Seguem-se uns aos outros, como se fizessem questão de embalar quem os ouve. Mas, de olhos abertos, a primeira imagem que se tem é a de mais de cinquenta homens, em total silêncio, à volta de cinco gaiolas apoiadas em postes e tapadas com panos. De cara séria e concentrada, dura como pedra, debruçam-se sobre a grade que os separa das gaiolas. Não há outra maneira de estar num concurso de tentilhões.
“É uma tensão muito grande. Um gajo pica sempre os outros, não é… Vira-se para o tipo do lado e diz-lhe ‘olha que o meu tentilhão é mais teso do que o teu’”, explica António Cunha, pasteleiro de 52 anos, que vive no bairro de Chelas em Lisboa. “Nós passamos o ano à espera do fim da Primavera. Quando chega a altura dos concursos é que se vê o trabalho que fizemos o ano todo”, justifica António, que já perdeu a conta ao tempo que leva de concursos de tentilhões.
Antes de o seu pássaro iniciar uma competição, António isola-o. Entra em estágio. “Vou lá para longe, para um sítio sossegado, onde não haja ninguém. Estou sempre a ver se há algum gajo que aparece por lá com outro pássaro só para desorientar o meu.”
Se a animosidade entre homens é um facto, embora seja saudável e controlada, o mesmo não se pode dizer dos tentilhões. Aos ouvidos de um humano o seu cantar pode ser agradável, mas na verdade estas aves estão num estado de tensão elevado ao máximo. “O tentilhão é um pássaro territorial e muito agressivo, se for preciso mata, é como se fosse um pitbull”, explica Miguel Mendes, desempregado de 40 anos, vizinho de António e passarinheiro por paixão. Ninguém adivinharia à primeira, que um pássaro pouco maior do que um canário fosse tão agressivo. Chegando a ter quase tantas cores como os seus primos mais dóceis, o tentilhão é um pássaro extremamente conflituoso que parte para a luta sempre que sente o seu território invadido. Nos concursos, a tensão entre os pássaros, todos machos e com o cio, é tal, que as gaiolas são sempre tapadas com panos para eles não se poderem ver uns aos outros.
Cada gaiola tem ao seu lado um jurado agarrado a um bloco de notas, que aponta criteriosamente o número de cantos que o pássaro faz. Ser membro do júri de um concurso de tentilhões é uma posição altamente prestigiante, porque é o reconhecimento de que aquela pessoa tem um ouvido muito apurado para o cantar dos pássaros. Se para um leigo, um tentilhão canta sempre da mesma maneira, um júri sabe distinguir nitidamente um “pim, pim, pim, pim, toim, toim, toim, ritochéu!” de um “ti, ti, ti, ti, ti, tuim, tuim, tuim, tuim, bébéchéu!”.
O canto de um tentilhão é divido em três partes: pega, pancadas e remate . Pode cantar, por exemplo, “tié, tié, tié, tuim, tuim, tuim, tuim, ritochéu!”. Neste caso, “tié, tié, tié” é a pega, que serve para chamar a atenção do adversário. “Tuim, tuim, tuim” são as pancadas, ou seja, as investidas mais incisivas perante o inimigo. E, quando acabam as pancadas, o pássaro só demonstra primazia se rematar o canto com um som claro e final. Uma espécie de “acabou a conversa!”, que, no exemplo acima fornecido, é “ritochéu”. O remate é um ponto essencial no tentilhão. Por isso, cada um será apelidado consoante a forma com que acaba cada canto. Se acaba em “cócóchéu”, é assim que será chamado durante toda a vida. Nos concursos, o vencedor de cada fase é o pássaro que consegue encher o peito e dizer “acabou a conversa!” mais vezes num espaço de 15 minutos.
Os concursos do Grupo Recreativo 11 Unidos duram habitualmente dois dias. O último, que teve lugar em Junho, foi ganho por um concorrente de Cascais. Quando ergueu o troféu perante os mais de 50 passarinheiros chorou de emoção.
Todos o querem comprar
O meu querido tentilhão
Custe lá o que custar
Mas vendê-lo, isso é que não
Enquanto o Verão não traz consigo os concursos de tentilhões, o tempo é passado a preparar as aves para as competições. Não há férias nem interrupções, e qualquer desleixo pode ser fatal quando as gaiolas são alinhadas.
“Ouve lá, estás a passar os cantos?”, pergunta António a Miguel, que está sentado ao seu lado no café do Grupo Recreativo 11 Unidos, em Chelas. “Sim, está descansado,” responde-lhe Miguel, enquanto mexe num computador portátil, com a cara quase a tocar no ecrã. Com o cabelo curto pintado de loiro, vestido com uma camisola verde tropa e calças de fato de treino cinzentas, Miguel parece um cantor de uma boys band dos anos 90 já na reforma. António só descansa quando Miguel lhe entrega em mão uma pen com cantos de pássaro, feitos a partir de um programa informático. Com o assunto resolvido, relaxa e cruza os braços, tapando as palavras em inglês desconexas que estão estampadas na sua camisola sem mangas cinzenta.
Volta e meia, António olha para a janela do café, onde está pousada a gaiola com o seu tentilhão. “Ti, ti, ti, ti, tuim, tuim, tuim, torrochéu”, vai cantando o pássaro, do qual só se vê a sombra através do pano branco que tapa a gaiola.
Se o objectivo de António é ter um tentilhão que cante bem e que seja valente, então há que pô-lo a estudar. António reserva uma parte da casa só para o seu pássaro, onde ele pode permanecer em total silêncio. A alimentação consiste em alpista, maçã, frutos secos e água enriquecida com vitamina E. “É como se fosse o Viagra do tentilhão, para ele ficar com muito cio”, explica o dono. Quando já está tudo pronto, António pega no gravador, escolhe uma melodia, e deixa-a a tocar durante meio dia.
“Ele fica lá a levar com aquela ensaboadela, tem de estudar. Mas também não posso deixar o pássaro a ouvir aquilo a toda a hora, porque se não também já não aprende nada e só lhe faz mal à cabeça. Eu também gosto muito dos Pink Floyd, mas se os ouvisse o dia todo também já os começava a deitar pelos ouvidos fora, não é?”, diz, com o cabelo grisalho penteado para a frente, incapaz de dizer uma frase sem se rir.
A excepção é quando se lembra dos tentilhões de outros tempos. Os melhores. “Não havia tentilhões com cantos tão bonitos e longos como os portugueses”, garante António, e Miguel confirma. Falam, por exemplo, do cócóchéu na arrastada, do bébéchéu de safaro, do torrochéu da zona de Borda de Água e do bréubréuchéu de Vila Franca de Xira, cidade próxima de Lisboa. “Já desapareceram todos”, vai repetindo Miguel, conformado, atribuindo as culpas aos incêndios e aos insecticidas. “Os de antigamente é que eram…”
Numa mesa do outro lado do café do 11 Unidos, um cliente mete-se com Miguel: “Sabes qual é o problema do antigamente? É que o antigamente já acabou!”
Já acabou e nunca mais volta. Tal como Bruma nunca aprenderá como Peyroteo chegava o pé à bola em cada golo que assinalava, por não haver imagens em vídeo do melhor marcador de sempre do Sporting, os tentilhões de hoje só com muita sorte cantarão como os melhores de sempre, já que não existem gravações sonoras de antigamente com qualidade suficiente.
Por isto mesmo, quem leva os concursos de tentilhões a sério sabe que é urgente controlar quem tem acesso aos cantos. “Eu não vou andar aí a passar os cantos que faço a computador a toda a gente, senão depois também perdem valor. É bom para nós termos cantos que são únicos, e se os espalhamos isso vai à vida. É assim. Quem quer peixe tem de molhar o cu!”, explica Miguel. Só passa cantos aos amigos mais próximos, como António, mas geralmente num sistema de troca por troca. “Não passes isto a ninguém, senão espalha-se”, adverte-os sempre.
Miguel parece estar mais preocupado com a exclusividade dos seus cantos do que com o facto de os concursos de tentilhões, tal como a posse de um pássaro selvagem em cativeiro, serem ilegais. “Ainda há pouco tempo paguei 530 euros de multa e mesmo assim ainda cá ando. Desde que dê para continuar nesta vida, eu vou pagando as multas que tiver de pagar.”
Ao mesmo tempo que Miguel fala, António vai deixando sair um assobio por debaixo do bigode farto e de risco ao meio bem pronunciado. O assobio sai-lhe tão bem que é quase impossível distingui-lo do cantar de um pássaro. António só quer que o seu torrochéu lhe responda. É verdade que o pássaro está longe de ser um bréubréuchéu de Vila Franca de Xira ou um cócócheu da Arrastada, mas continua a ter o seu valor. “Se mo quiserem comprar por 300 euros não o levam de certeza. É o levas!…”
Já está velhinho e cansado
O meu querido tentilhão
Hei-de morrer agarrado
Com ele no coração. *
Uma das regras de ouro para manter a sanidade dentro do meio dos concursos de tentilhões é entender que o pássaro é mais importante do que o homem. “O tentilhão é chulo, ele só canta quando quer,” grita um dos clientes do café do 11 Unidos. “O pássaro é que manda nisto tudo.”
Ainda assim, as histórias mais marcantes dos concursos andam sempre à volta dos homens. São histórias contadas com orgulho, mesmo que sejam as histórias dos outros. Em Chelas, Camarate ou no Bairro da Boavista, onde se concentra a maior parte dos aficionados por tentilhões, são várias as histórias que passam de geração em geração, e que são recorrentemente lembradas em conversa.
Uns falam do senhor Luís, de Cascais, que era cego. “Era incrível, mesmo sem ver o homem não deixava que a família tratasse dos pássaros. Ele é que fazia tudo, tratava deles, da comida, dos treinos… E ele apresentava sempre bons pássaros, eram os melhores pássaros do Monte do Estoril e de Cascais.”
Outros falam de Virgílio, residente Chelas, que, além de exímio na arte de apanhar pássaros, consegue treinar dos melhores tentilhões daquele bairro da cintura de Lisboa. Houve um ano, porém, em que Virgílio se apercebeu de que o seu pássaro não era valente. Quando confrontado com outros tentilhões, perdia o pio. Ainda assim, pôs o pano sobre a sua gaiola e apresentou-se a concurso. “O pássaro começou a cantar muito, uma coisa incrível”, recordam alguns. Os cantos foram contabilizados e, como já era de esperar, Virgílio saiu vencedor – até que um dos membros do júri se lembrou de desatar o pano que tapava a gaiola. Em vez de um tentilhão, encontrou um gravador.
Mas é só quando falam de uma história que já tem quase 30 anos que os aficionados por concursos de tentilhões baixam a voz. Tudo começou num café, onde dois homens discutiam, já aos gritos, qual deles tinha o melhor pássaro. Só havia uma maneira de saber quem tinha razão: fazer um concurso ali mesmo, no café, perante toda a gente.
Já com as gaiolas pousadas nas mesas, o café calou-se para seguir o duelo. Mas cedo a expectativa de um grande embate foi gorada: um dos tentilhões começou com força, entrou com tudo ao jogo e cantava sem interrupção na gaiola. O outro, com medo, ficou calado.
Humilhado pela prestação da sua ave, o derrotado pegou na gaiola e foi para casa a correr. Depois de trancar a porta, matou o tentilhão e, de seguida, enforcou-se.